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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O menino e o tempo


“Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino...” Trilha sonora mental para a imagem que eu via, a música de Caetano Veloso se repetia na minha cabeça. Eu vi o menino correndo. Não era, porém, uma cena de recreação. Não era a cena comum da minha infância, da infância dos meus irmãos, dos meus amigos. Era a imagem de uma criança que, em meio ao trabalho do dia, “dava-se ao luxo” de ser criança por alguns segundos.

O sol de quase meio dia estourava os miolos de quem não tinha o abrigo de árvores, marquises ou do ar-condicionado. E lá estava ele, correndo à beira da avenida, arriscando-se próximo aos carros que acabavam de arrancar sem comprar sequer uma de suas balas ou chocolates. Sempre me soou estranha a imagem de uma criança vendendo doces. Logo os doces, ícones de uma infância feliz, cores e sabores para quem não deve ter com o que se preocupar. “É como tirar doce da boca de criança”, diz o ditado, ironicamente cabível ao caso. Uma criança que vende balas no sinal teve o doce tirado da boca, a infância roubada.

Naquele instante, o menino permitia-se ser criança. O sorriso ao correr atrás do amigo, que ali também era um colega de trabalho, revelava a beleza do pequeno ser, maltrapilho, suado e de corpo franzino. À medida em que corria, sem perceber, entretido na inocente brincadeira, abria espaço entre os passantes que, desconfiados, apertavam bolsas e escondiam objetos de valor.

Foi, então, que “vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino”. Diante dos meus olhos, havia uma criança. E isso era o que me tocava. Ele não seria criança para sempre. E isso era o que me doía. O tempo se encarregará de cumprir seu papel, sem relevar nada, sem ressalvas, sem medidas. Até quando aquele menino insistirá na venda frustrada de doces, na vida regrada, na escassez? Até quando será indiferente às bolsas que se escondem e aos trincos que se fecham a sua volta?

“Vida fácil” a que lhe oferecerão mais tarde. E bem provavelmente não tão tarde assim. A vida do crime talvez lhe pareça mais atraente que os dias debaixo de sol, chuva e preconceito. Talvez em breve “o menino correndo” não seja a imagem de uma brincadeira, mas a de uma fuga: da polícia, da violência, da disputa, dos tiros, do tráfico, da vida difícil em que se criou.

Segui com Caetano na cabeça. Trilha e imagem. Filme de triste fim o que criei. Olhei para trás e tive tempo de ver o pequeno garoto de volta ao sinal, com sua caixa de balas e chocolates. Levaria algum sonho? Sinal aberto para os carros e uma venda apenas. Ele sorria satisfeito. Até quando?

sábado, 19 de janeiro de 2013

Amor de passagem


Ele tinha o destino dele. Ela tinha o dela. Eram destinos diferentes que, por acaso, se cruzaram no caminho. Única missão na vida um do outro: encontrarem-se. Simples assim. Sem fortes impactos ou grandes transformações. Um amor de passagem, que não levou muita bagagem consigo. Uns beijinhos aqui, uns pegas acolá, um sentimento que pensou em nascer, mas acabou encruado.

Sábio destino! Tinham coisas grandiosas a fazerem sozinhos. Um sem o outro. Livres. A lembrança agora era como a dedicatória anotada no velho livro. Ficaria ali, perdida, encerrada em uma estante da memória, que um dia, talvez, em uma das mudanças do destino, será reencontrada, relida, e novamente guardada.

Nem todo romance tem papel de destaque. Aquele não teve função alguma. Pelo menos nada que renda boas histórias na velhice. Foi um romance, porém. Teve frio na barriga, pupila dilatada e beijos intermináveis. Teve arrepios, noites em claro e sorrisos cúmplices. Deu choque, deu febre. E foi embora. Sem alarde. Assim como chegou.

Ele seguiu o caminho dele. Ela seguiu o dela. E fizeram coisas muito melhores assim.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pés calejados, novos caminhos




Depois de algum tempo de caminhada, os pés estavam cheios de calos. Cada um trazia uma história, cada um doía diferente. Mas todos doíam. Estranho no momento de trilhar um novo caminho. Complicado explicar na hora de calçar um sapato novo. Difícil não ter medo de se machucar mais uma vez, ganhar mais um calo, em um pé pequenino, que já não suporta mais.

A vida continua, é certo. Os caminhos ainda são muitos, longos, variados. Mesmo que doloridos, os tais pezinhos precisam seguir. Vão tateando o espaço, sentindo o terreno. Atitude difícil essa de abandonar o velho e confortável tênis, onde os calos já se encaixavam, onde os pés já se entendiam.

Recomeçar uma caminhada é sempre um desafio. Merece tempo, paciência. Pra aprender o caminho, pra respirar os novos ares, pra entender o porque de prosseguir. Devagarinho os pés se reencontram, ganham firmeza e confiança, perdem o medo dos obstáculos e das armadilhas. Dali a pouco, dançam na pista.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

“Gosto muito de te ver, leãozinho!”



O dia em que conheceu Nara! Alice lembra como se fosse ontem: no começo do ano letivo, na padaria perto da escola. Não demorou a descobrirem que seriam da mesma turma. Quando se apresentaram, Alice, lembrou-se logo da cantora preferida da mãe: Nara Leão. Sempre associava Nara a Leão. Primeiro, pela cantora, depois, pela vaidade que foi percebendo na, então, nova amiga. Nara era um leãozinho de tão vaidosa! Alice achava divertido. Não era algo que a incomodasse.

Desde aquele encontro na padaria, muitas histórias foram escritas. Compartilharam as diversas fases da vida, as histórias e novidades que cada uma traz. Houveram brigas, claro, mas briga de amigo leal é aquela que, não importa o barulho que faça, no fim das contas sempre acaba no silêncio de um abraço. Os trabalhos da escola, as festinhas nos fins de semana, os amores platônicos, os romances de verão, as crises existenciais, as furadas da vida, as escolhas profissionais, tudo, absolutamente tudo, compartilhado amiúde.

O tempo, no entanto, o velho tempo na história de Alice, age sobre tudo: transforma coisas, pessoas e situações. Vezes para melhor, vezes para pior, outras para simplesmente diferente. O fato é que age sempre, despudoradamente. Na história de hoje, ele, claro, agiu também. Veio uma tal formatura do colegial. As duas mocinhas seguiram caminhos diferentes. Alice, como era de se esperar, foi estudar filosofia. Nara, com seu cérebro matemático, acabou na engenharia. Tudo certo até então.

Partilharam todos os primeiros passos das novas vidas. Até que um dia surgiu um caminho por onde apenas uma poderia passar. Assim foi. Alice viu Nara caminhando longe, mais leãozinho do que nunca, por uma estrada que nunca a atraiu. Antes daquela estrada, abriu-se um abismo. Ali, cairam todas as (novas?) diferenças entre as duas. Não havia mais assuntos em comum, nem convites para o fim de semana. Não havia mais cumplicidade, nem histórias compartilhadas. Tudo no fundo do abismo. Guardado na memória, transformado pelo tempo.

Alice quis, por muitas vezes, construir uma ponte ou qualquer outra coisa que as fizessem novamente andar pelo mesmo caminho ou que, pelo menos, permitisse, vez ou outra, um reencontro. Não deu certo e Alice entendeu que na vida há coisas muito difíceis de serem resgatadas. Alice aprende coisas diariamente. Com aquela história, e algumas outras que a vida acabou lhe trazendo, entendeu que nem toda amizade dura para sempre. O tempo age sobre elas e não é sempre que faz como no vinho: torna mais fino e saboroso com o passar dos anos. 

domingo, 15 de abril de 2012

Depois da tempestade, a borboleta


Choveu forte. Choveu muito. Foi uma tempestade, com direito a ventos e trovoadas. O céu estava escuro e escura estava a alma de Clarice. Estranho que agora, quando a tempestade se fora, houvesse ainda um gosto amargo na boca, uma picadinha no peito, uma dorzinha daquelas chatas, fininhas, mas que vão durando, incomodando como o ferrinho do dentista.

Clarice ainda estava se levantando. O corpo doído, lenhado da luta. O céu clareava, o sol já dava o ar da graça. Restava-lhe apenas levantar e seguir. Sorrir o alívio de quem conquistou a vitória. Curioso é que ela ainda tivesse medo. Que ainda vacilasse na caminhada. Logo Clarice, tão forte e decidida. Verdade que também sempre trouxe em si a certeza da própria humanidade. Sabendo-se humana, Clarice sempre foi tolerante com as próprias fraquezas: uma hora, afinal, ela teria de chorar. Em algum momento, teria de ter medo; alguma situação haveria de deixá-la insegura. E ela sempre permitiu-se isso. Na medida certa, na duração exata para que aquilo não a impedisse de seguir em frente. A luta não havia sido fácil. Nunca foi fácil ser Clarice.

Ainda doía. A luta, a quebra, a falta, as mudanças repentinas, o desconhecido. Ter de descobrir novamente o caminho! Nada de anormal. Mais uma questão de respirar e esperar o tempo passar. Agora ela queria apenas um pouco de casulo. A borboleta estava se fazendo, colorida, nova, bela. E viria cheia de energia. Renovada. Mais Clarice do que nunca.

domingo, 4 de março de 2012

A volta de Alice


Alice desceu as escadas da sala de desembarque com frio na barriga. A viagem havia sido longa. E ela havia estado longe. Longe de seu espaço, longe de todos e, o mais difícil, longe de si mesma. Como em qualquer viagem, Alice aprendeu. Cresceu com os acontecimentos, com as dificuldades, aprendeu com as pessoas - mesmo com aquelas que só ensinaram-na a não colocar a mão no fogo por ninguém. Ser outro muitas vezes serve para nos mostrar quantos outros existem nas pessoas mais próximas de nós. E que nem todos são bonitos de se ver.

Era estranho voltar depois de tanto tempo imersa em outro lugar. Outros costumes, outras pessoas, outra Alice. Ser outra era questão de sobrevivência por onde ela andou. Nem sempre ela acertava na encenação, mas, de fato, ali, encenar era preciso. Pessoas como Alice não alcançam a frieza. E, por isso, em determinados lugares, com determinadas pessoas, elas sofrem. À ela, era dolorido buscar a objetividade a todo custo, era dolorido ser como os outros, era dolorido ser outra Alice quando a verdadeira Alice clamava por liberdade, enclausurada em si mesma.

Ser forte cansa e cansa ainda mais quando se sabe que ser fraco não é permitido. Alice estava exaurida. Até aquele momento. Até o momento da volta. Até descer as escadas da sala de desembarque e sentir nos pulmões cheios o ar da liberdade. Ela estava de volta. Pra casa, pra si mesma, pra vida. Alice sentia-se livre de novo. Sentia-se renovada. Como se estivesse guardada o tempo todo, esperando o momento de voltar. Plena, cheia de energia. Sensível de novo! Trazia consigo a maturidade que se ganha nos campos de batalha. A sabedoria de quem conseguiu passar por ele, sem deixar que morresse sua essência, libertando-a plenamente depois da conquista.

Alice estava de volta! Feliz, livre, Alice. Tranquila e certa de que, como após toda batalha vencida, restava-lhe, mais forte e mais serena, colher os frutos de quem mereceu chegar até aqui.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Senhora Perfeita


Você sempre foi a aluna perfeita. Desde criança, desde sempre. Como boa aluna, você logo aprendeu que deveria honrar pai e mãe e... bingo! Você já era a filha perfeita. Os anos se passaram e a coleção só cresceu: a amiga perfeita, a namorada perfeita, a profissional perfeita. A pessoa perfeita! Você se habituou a isso, comprou a ideia e, entusiastas da sua perfeição, as pessoas ao seu redor assinaram embaixo.

Pronto. Estava lavrado em cartório: você é perfeita e não pode falhar. A partir dali, nem você, nem ninguém, lhe deram permissão para ser gente. Carne, osso, dias de mau humor e algumas cagadas. Contar uma mentirinha? De jeito nenhum! Cobiçar o vestido da amiga? Você não precisa disso! Colar na escola, enrolar no trabalho, responder a professora, acordar estressada, olhar pra outro cara? Nem pensar! Deixar de abrir mão das suas vontades, ir ao cinema numa segunda à tarde, dizer não de vez em quando, ficar sozinha em casa num sábado à noite ou quem sabe cair na balada com a roupa (e a vergonha) mais curtas que você tiver? Não, não e não. Essa não é você. Você é a Senhora Perfeita, se já se esqueceu.

Pessoas perfeitas só ganham esse honroso posto se souberem, sobretudo, serem perfeitas para as outras pessoas. Você não pode exigir nada, não pode querer nada. Pessoas perfeitas apenas se doam. Elas não merecem nada em troca. Estão sempre prontas para quebrarem o galho com um sorriso de propaganda de creme dental. Nunca precisam de nada: de um colo, de uma força, de um pouquinho de tolerância. Elas não podem se deixar levar pela lua ou pelas conjunções astrais. Elas têm hormônios em perfeita sintonia. Pensamentos em perfeita sintonia. Todos os chakras em ordem. São incansáveis. Não têm carências, não têm medos, estão sempre de saco vazio, sacam de tudo, não erram. São perfeitas!

Você questiona. Você sabe que não é perfeita, nem tem o menor apego ao título, mas foi assim que você aprendeu. Foi isso que lhe fizeram acreditar a vida inteira. E talvez tenha sido isso que tenham acreditado a vida toda também. Você nunca pôde escolher “não ser perfeita”. É, então, que você senta e espera que alguém perceba suas imperfeições e as aceite como algo absolutamente humano ou então arrisca, liga aquele famoso botão do “to nem aí” e deixa o tempo mostrar a todos que a verdadeira perfeição está na sábia decisão de Deus de nos fazer todos imperfeitos para um dia, quem sabe, entendermos alguma coisa da vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

Colo


Vem, Clarice! Pousa a cabeça aqui no meu colo. Conheço bem esses olhos inquietos. Sei que tem alguma coisa doendo aí dentro. Não precisa falar nada. Apenas deita aqui e me deixa passar as mãos nos seus cabelos. Faz de conta que elas têm o dom de organizar seus pensamentos. Chora. Pode chorar alto ou baixinho. Eu não ligo e vou fingir que não estou vendo. Tudo bem? A gente fica assim, eu cuidando de você e você esquecendo do mundo, o tempo que for necessário.

Aos poucos vou entendendo tudo. Como se meu corpo fosse capaz de ler as suas mágoas, como se o seu desabafo viesse por meio da pele, do contato. Tem algumas coisas cozinhando aí dentro, não é, Clarice? Deixa sair o vapor. Quanto mais fechado a gente fica, mais as coisas fazem pressão dentro da gente. Uma hora a gente enfraquece e explode. Dá pra ser forte sem deixar de ser humano. Também dá pra ser leve, sem deixar fazer o que precisa ser feito. É uma questão de equilíbrio.

Às vezes falta um colinho, como este de agora. Há dias em que a gente quer um sorriso e esse sorriso não vem. Às vezes, a gente se dá e não recebe nada em troca. Pessoas e situações nos decepcionam. É normal, Clarice. O que não pode é a gente deixar essas coisas ganharem mais importância do que merecem. O que não pode é deixarmos as chateações nos impedirem de vermos as bençãos da vida, de enxergarmos a nós mesmos.

Parte das suas lágrimas é saudades de si mesma. Que tal marcar um encontro com o espelho? Há coisas que só podemos fazer sozinhos. Mergulhar dentro de si, fazer uma faxina, até se achar novamente, limpa e inteira. Sem pressões, sem decepções, sem lágrimas. Meu colo apenas para matar a saudade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O que ele queria


"Um cara que compra morangos com leite condensado e vinho, quando vai receber uma mulher não pode estar bem intencionado. Ele queria me comer. E, hoje, passados alguns meses, digo mais: ele só queria me comer", disse Elis à amiga, sem papas na língua, com a naturalidade e o tom alto de voz que lhe eram peculiares.

Elis era um figura singular. Tinha a meiguice que o nome suave supunha, mas era dona de uma sinceridade que beirava a grosseria. Dizia verdades como quem comenta a novela das nove. Talvez fosse assim que tivesse que ser: que a verdade nos parecesse mais natural que a novela das nove. Acho que invertemos os papéis. Mas, enfim, era de Elis que falávamos. Curiosa Elis. Olhinhos atentos como os de uma criança. Vez ou outra soltava um comentário infantil. Ora com perspicácia, ora com inocência, mas sempre sincero. Acho que, na verdade, Elis era uma criança que ficou grande. Bem, nem tão grande assim. Elis era miúda. Os anos, no entanto, foram impiedosos. Lá estava ela no mundo dos adultos e ela já havia entendido: no mundo dos adultos há caras que só querem "te comer".

Elis era bacana. Gostava de ler, aprender coisas novas, gostava de ajudar, gostava de ouvir e dar seus palpites cheios da (nem sempre caridosa) verdade. Era uma garota bacana, mas garotas bacanas também encontram canalhas na vida. Elis sabia que tinha encontrado mais um. Aliás, nas suas análises psicológicas (registre-se: Elis adora fazer análises psicológicas), ela nem o achava tão bandido assim.

Ele estava perdido. Queria Elis, mas, mais que isso, queria encontrar no corpo dela os brios perdidos de outrora. Ele sabia que podia despertar o amor de uma mulher. Elis seria a certeza que lhe faltava. Era isso: descobrir que ainda podia desejar e ser desejado. Depois disso, ir embora. Criar laços seria demais. Ele não podia, tinha medo. Um completo incompetente afetivo. "Um filho da puta!", bradava o ego ferido de Elis. Talvez ele fosse mesmo. Cedo ou tarde ele descobriria-se assim. A imaginativa Elis já era capaz de vê-lo repetir frente ao espelho: "Filho da puta!" Dessa vez, por entender que o sacaneado não era ninguém mais do que ele mesmo. "Perdeu, playboy!", disse Elis nos seus pensamentos. E saiu, cheinha de si.

sábado, 15 de outubro de 2011

Talvez você precise saber


Sou uma mulher de hábitos simples. Gosto de cheiro de chuva. Gosto de hambúrguer às segundas-feiras. Gosto de sentar no meio-fio. Adoro parque de diversões, pipoca de carrinho, algodão doce. Costumo passar os domingos em casa, de pijama. Gosto de sol, de natureza. Sofisticações não são para mim. Agacho para brincar com as crianças. Aposto corrida na piscina. E perco. Faço careta para tirar foto. Realizo-me nas feiras populares: das bijus baratas ao tropeirão na hora da fome. Gosto de andar descalça. Faço miojo com molho pronto e até que sou boa dona de casa. Minha bebida preferida é água e dificilmente troco o feijão com arroz, bife e batata frita. Canto no chuveiro. Adoro pão com mortadela. Faço prato de peão no self-service. Vou às compras de havaianas. Eu mesma faço as minhas unhas (sem tirar bife!). Ando de ônibus. E saio à pé, quando quero ser saudável. Não costumo comprar roupas de marca (a não ser quando o custo-benefício faz por onde). Vinhos baratos me divertem. Nunca escolho um cara pelo modelo do carro ou pela conta bancária. Falo sozinha. Dou faxina na casa ouvindo música. Não vou a restaurantes requintados. Não como comida japonesa. Amo coxinha e pastel de milho. Tiro o sapato na mesa de trabalho, quando ninguém está olhando. Dou risada sozinha na rua e acho graça das pessoas se levarem tão à sério.

Se mesmo depois de saber tudo isso você ainda quiser me conhecer melhor, muito prazer: também tenho um lado lady pra te mostrar.

Para mim, ser elegante é ser livre. Quer experimentar?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sobre aprendizados e receitas


É, Alice... Já faz quase um ano. Os dias passam rápido. Bem mais rápido, aliás, que as nossas dores. O bom da vida é que, no fim das contas, elas também acabam passando. Nem parece que um ano atrás você vivia e sentia aquilo tudo, daquele jeito, com aquela intensidade. O tempo passa e com ele passa um pouco da gente. Mudamos. E aí está você, bem diferente do que era há alguns meses. Não que você não seja mais você. Você tem sido mais Alice a cada dia. E isso te garante autonomia para absorver o positivo das transformações da vida.

Hoje você sabe que aquela vivência mais fez mal do que bem. Hoje a balança funciona. E não é curioso que seja quando você não precisa mais dela. Naquela época você precisava não tê-la. Parece maluco, mas não é. A vida nem sempre faz sentido.

Hoje você lembra as palavras e as acha frias, vazias, com o peso do “não ter o que dizer”. Faltou recheio naquele bolo. E, sabe, Alice, é muito triste viver sem recheios. Esqueça as receitas erradas, os ingredientes em falta. Pegue os que você tem em mãos e faça algo, se não saboroso, ao menos divertido. Você era leve demais para aquela massa. Continue experimentando e experimentando-se. Assim você compreende que errar a mão também faz parte da construção de um grande mestre cuca. Delícia viver.

Bon appétit!

sábado, 27 de agosto de 2011

Película



Rua da Bahia. Hora do rush. Desço à pé, como há muito tempo não fazia. O cenário ganha cores nunca vistas. É um filme gravado em película, quase em câmera lenta. Meus olhos são câmeras múltiplas, rápidas, perspicazes. A luz rósea do entardecer mistura-se aos faróis dos muitos carros que ouço buzinarem na descida para o Centro. Eles têm pressa. Eu, àquela altura, já não tinha nenhuma. Os olhos seguiam, enquadrando tudo, fotografando todos.



Uma senhora pedinte, sentada à porta da Igreja de Lourdes, era parte permanente do cenário. Ninguém mais a via. O carrinho de pipoca atraía os olhares infantis. Mãozinhas espertas puxavam as dos pais, chamando o olhar para baixo, como a pedir uma parada. Ternos sisudos subiam a rua, carregando o cansaço das reuniões do dia. Ipods e similares faziam trilha sonora para passos apressados. Mesas à porta dos bares reuniam copos e gargalhadas. Cabelos roxos e vermelhos moviam-se entre braços tatuados e gesticulantes, querendo chamar a atenção do mundo. Motoristas engoliam as faixas de pedestres e, com elas, qualquer resquício de gentileza urbana.



Aos poucos, o fluxo seguia. De gente, de carros e da vida. Ela nunca esperou o engarrafamento passar para ir em frente.

domingo, 26 de junho de 2011

Ao som de passado


Acordei e coloquei aquele CD para tocar. Sem mais pretensões. Juro. Talvez, caro leitor, você diga: “Não disfarce, Clarice, já te conheço.” Alguns textos depois, tenho que admitir: conhece como poucos. Mas desta vez preciso apresentar-lhe um lado que desconhece: nas minhas filosofações, quase nunca faço algo de propósito. Coloquei lá o tal CD, sim, mas sem um motivo específico. Coloquei por colocar, vontade de ouvir, cantar e viajar ao som das músicas que embalaram parte da minha vida. O que não lembrei, na escolha do CD, é de qual parte foi essa.

Não precisaram muitos acordes para que viesse tudo à memória. Tudo e todos. Todo. Parece até que senti os mesmos cheiros, as mesmas sensações, ouvi os mesmos sons e que o mesmo rubor nas faces me acometeu sem piedade. Veio a paixão, vieram as dúvidas, aquele abraço e aqueles olhos que, mesmo abertos, pareciam fechados, de tão hermética era aquela alma. Claro, em algum momento da canção, também vieram as dores, as decepções, as sensações desagradáveis que tantas vezes aquela relação me provocou.

Como as músicas podem ser missionárias em nossas vidas, não? Acho que elas também são uma forma de Deus nos dizer algumas coisas. Desta vez, Ele me disse: “já deu, Clarice. Se há ainda algum resquício daquele passado no seu coração, joga fora, não tem mais lugar para ele aí.” E assim foi. Deixei o CD tocar, como se, com cada nota, fossem embora pelos ares todas aquelas sensações que, sabe-se lá porquê, eu havia suportado por tanto tempo. Foi uma limpeza. Uma faxina pela qual eu precisava passar. Para arrumar bem o armário, é preciso trazer à tona toda a tralha que insistimos em guardar porque “um dia podemos precisar”. Aquelas canções foram muito claras: dessa tralha eu não preciso mais.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Onde queria chegar


Ela era assim. Serena, tranquila. Pessoas tolas a indignavam, mas sem tirar sua pacificidade. Tinha valores claros e muitas vezes opostos aos da maioria. Ser minoria nunca foi fácil. Traz o conflito, o medo e a constante ameaça vinda do grupo dominante. Seja uma opinião radical, um olhar de preconceito ou um julgamento bobo. Eles sempre fazem questão de se manifestar.

Não, nunca foi fácil, mas nada bloqueia quem sabe o que quer. Ela sabia-se diferente, mas era certa de quem era e porque era. Isso torna tudo mais tranquilo. É bem mais fácil tirar os obstáculos do caminho quando sabe-se onde se quer chegar. Ela sabia como poucos. Por isso seguiu, driblando as ilusões da vida e pouco se importando com aqueles que achavam dominá-la. Ela sempre foi a única que se dominou. E sem nenhum tom de arrogância nisso.

Seguiu, com toda a sua serenidade e paz interior, com toda sua capacidade de amar, ainda que conseguisse ver, no interior das pessoas, tudo o que de ruim elas carregavam. Tinha faro para os defeitos alheios. Conhecia a todos minuciosamente, mas guardava-os para si, por entender que trazê-los à luz não os exterminaria. Amava as pessoas ainda assim. E isso tudo porque sabia exatamente quem era e aonde iria.

Chegou onde sempre quis chegar. Até lá, esteve boa parte do tempo sozinha. Agora, tudo era festa. A vida é mais simples do que se imagina.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tempo

“Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou.” Legião Urbana


A música lembrava ele. A melodia fincava-lhe o coração sem sutileza. Trazia-lhe à mente o par de olhos que tanto admirava, o gosto e a textura daqueles lábios, a audácia daquela língua. Era quase como sentir de novo as mãos, o abraço, a temperatura. Era uma canção triste, de letra dolorida. Maltratava-lhe mais por dizer-lhe a verdade: tudo acabou. Lá estava ela novamente, solitária com seus pensamentos, enquanto ele, talvez, sequer lembrasse de tudo o que houvera. Ela, ainda que tentasse esquecer, recordava cada detalhe.

As coisas aconteceram de maneira inusitada. O encontro, o encanto, o desencontro, a entrega, a fuga. Como se algo tivesse misturado a cronologia dos fatos. Como se fosse a história certa no tempo errado. Agora ela sofria as consequências de sua falta de habilidade com o calendário. Em pensamento, pedia a Chronos, Deus do Tempo, uma chance de fazer diferente. Sabia que teria de esperar. Talvez uma retaliação pela ansiedade de outrora ou, o mais provável, uma oportunidade de aprender a graça da paciência e da serenidade.

O aparelho de som silenciou a música. Agora ouvia apenas seus pensamentos. Eles quase encontravam-se com os dele, que, do outro lado da cidade, lembravam o abraço dela, que esperava um dia ter novamente.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O que veste a alma

“Que se eu tiver que ficar nu, hei de envolver-me em pura poesia.” Vander Lee


Houve o tempo em que foi uma roupa nova, como muitas das que já teve. Uma roupa limpa, engomada, com cheiro de nova. Gostava dela. Achava-se bonita com ela. Admirava-se no espelho. Enchia o peito, erguia a cabeça sempre que estava dentro dela.

O tempo passou e a roupa deixou de ser nova. Perdeu o brilho, a goma, a beleza. E já não lhe cabia tão bem. Não havia mais prazer em sair vestindo-a, desfilando em frente ao espelho para a plateia de uma pessoa só. Já não tapava-lhe o frio, nem dava-lhe proteção. Transformou-se em apenas uma peça para cobrir-lhe o corpo.

Havia dias em que preferia a nudez. A liberdade de não ter nada escondido, de ser e estar ali, genuína e entregue a si própria, sem nada a apertar-lhe o corpo ou a condicionar-lhe as ideias. As vezes é preciso estar nu para entender o valor real da vestimenta e qual roupa nos veste melhor.

Ela estava nua. Era livre naquele instante e agora compreendia: a roupa nova e bem engomada de tempos atrás não era para ela. Ela, outrora, quis muito estar vestida, sentir-se bem, protegida por aquele corte de tecido. Precisou da nudez para entender que aquilo não era o bastante e que, mais que o corpo, aquela roupa deveria amparar-lhe a alma.

As pessoas, por vezes, escolhem roupas erradas ou ocasiões inapropriadas para usar uma veste. Rende algum desconforto, ainda que a percepção seja tardia, mas vale o aprendizado e a compreensão do que faz a moda de cada um.

Há uma roupa que, às vezes se esquece, mas nunca se despe: a essência individual. Foi assim que ela, a mulher da nossa história, esqueceu a velha roupa material, vestiu-se de si mesma e foi lá ser feliz.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Ícaro sem asas



- Você não gosta de voar, Ícaro? Então vem! - dizia sorrindo e saía rodopiando, braços suspensos, até o meio do salão.

Eu gostava de vê-la dançar. Parecia mesmo um pássaro, leve e doce em seu vestido lilás esvoaçante. Gargalhava de longe, debochando da minha timidez, sem entender que eu a observava em silêncio parte por acanhamento, parte por pura admiração. Ela parecia livre e indiferente às mazelas da vida. Eu tinha inveja disso. Eu queria ser assim. Sabia que não era capaz de enxergar a vida com a mesma naturalidade que ela e isso me tornava impotente. Incapaz, inclusive, de fazê-la feliz.

A forma como passava por cima dos problemas e, até mesmo, das desfeitas que eu por muitas vezes lhe fazia, beirava a inocência. Mas sei que, na realidade, ela conhecia perfeitamente minhas tolices e deficiências. Sabia o quão frágil eu sou diante dos meus próprios sentimentos. Conhecia cada um dos meus medos e sabia da minha inércia. Nem dança, nem vôo, nem atitudes. Eu não era capaz de nada. Contraditório, de fato, se compararmos à história de meu xará, Ícaro, filho de Dédalo, da Grécia Antiga, que arriscou a vida pelo sonho de voar, pelo desejo da liberdade.

Sou um Ícaro sem asas. Um Ícaro que sequer tenta voar. Por um lado, estou preso a uma bola de ferro chamada passado, escravo de meus próprios fracassos. Por outro, me amarro a um futuro que, embora longínquo, está perfeitamente desenhado na minha cabeça. Ela não. Ela veste-se de coragem e vai embora. “Seja o que Deus quiser!” É dona de uma fé que em mim morreu faz tempo, se é que um dia chegou a existir.

Sei que ela me quis. E quis intensamente, como tudo na vida. Talvez ainda sinta algo, mas, não bastasse o que faço a mim mesmo, fiz a ela o mal de machucar-lhe as asas. Não foi por crueldade. Eu também a queria. E talvez por querê-la e admirá-la tanto, mais uma vez, sucumbi ao medo. Enterrei-me no submundo que criei. Eu não saberia voar junto dela. Ela teria que fincar os pés na terra, junto comigo, nessa vida sem graça que me dei. Não seria justo.

Hoje entendo que ela quis me resgatar. Ela desejou ardentemente salvar-me de mim mesmo. Esforçou-se. Foi paciente, estendeu-me a mão incontáveis vezes. E eu nem sempre estendi a minha de volta. Acho que é justo estar onde estou. No íntimo, sei que só eu mesmo posso me libertar. A dúvida que me incomoda é se mereço, de fato, essa libertação. Além da certeza, preciso de coragem. E coragem não se faz da noite para o dia. Acho que ela me ensinou uma parte. Resta-me tentar sozinho agora. Enquanto isso, continuo vendo-a dançar, livre como um pássaro. Bonita. Feliz. Quem sabe, se eu criar asas à tempo, consiga alcançá-la? Ainda posso honrar meu nome e, como o Ícaro da Grécia, aprender a voar.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Clar-alice


Ele a olhava de longe. Ela, claro, percebeu, mas não conseguiu assimilar. A mesa do bar estava lotada de amigas lindas. Porque ele a escolheria? Não, não devia ser pra ela - pensava. Girava os olhos ao redor, como a procurar o verdadeiro alvo daqueles olhares. Ninguém.

Sim. Ela estava sendo olhada. Não entendia, porém. A vida toda tinha se esforçado para encontrar beleza em si mesma. Por vezes, até garimpava alguma coisa, mas quase sempre achava as amigas mais bonitas que ela. Não notava, no entanto, os olhares que a perseguiam por onde andasse. Quando notava, era sempre assim: desconfiada. Um auto-boicote descarado. Impiedoso.

Alice sempre foi assim: condescendente com os outros, cruel consigo mesma. Talvez por isso sempre tenha se apaixonado pelos rapazes errados. Uma forma inconsciente de punir-se sabe-se lá porquê. Coisa estranha. De outras vidas, talvez.

Alice é doce e sonhadora. Gosta de pensar na vida e de não entendê-la. Estranho não? Alice gosta da insapiência. Talvez porque saiba que o “não saber” é a mola que move o mundo. Enquanto o homem não souber de alguma coisa, estará buscando, se movimentando. A angústia de não saber nos leva adiante.

Alice segue ignorante de seu futuro, mas sempre supondo, inventando e desinventando histórias para si mesma. Tentar definir o indefinível é seu melhor passatempo. Às vezes, um flash de lucidez e auto-solidariedade a acomete. É, então, que Alice começa a supor sobre os homens. Entende que eles podem, naturalmente, achá-la bonita. E admite que talvez realmente seja. Diverte-se de pensar que alguns olhares sejam para a aura pensante que percebem nela. Alice tem atração pelo intelectual. É quase físico. Como se inteligência e capacidade de questionar a vida fossem afrodisíacos. Ela acha graça de si e dos outros, por pensar que existam homens igualmente insanos a ponto de desejar a “cabeça” de alguém. Alice ama com a cabeça e a alma, depois com o corpo. Quando consegue unir os três, a tríade perfeita, aproxima-se do cosmos.

Por vezes, a sonhadora Alice divaga a ponto de aproximar-se de seu alter-ego: Clarice, uma mulher inquieta, mas plena; questionadora, mas segura; madura, sedenta de conhecimento, de gente, de vida. É como se Alice fosse o passado e Clarice o futuro. No presente, alguém dividido entre ambas. Alguém que traz um pouco de Alice e já tem traços evidentes de Clarice. Alguém a quem falta pouco para ser completo. Uma mulher inteira. Clar-alice. Capaz de ver, aceitar e entender os olhares do rapaz do bar. Afinal, pra quem mais eles poderiam ser?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quebra-cabeça


De novo. Eu e meus pensamentos. Na escola, meu professor de filosofia dizia que eu bem fazia jus ao nome: Clarice. “Você pensa tanto quanto sua xará, a Lispector.” Naquela época, eu pouco conhecia Clarice, mas hoje concordo com Francis. Nome de pensador também. Os meninos da escola se divertiam com isso, diziam que era nome de mulher. Coisa de adolescente bobo. Fato universal: meninas amadurecem bem mais cedo que meninos. Eu amadureci. Na verdade, às vezes me pergunto se já não nasci pensante. Vez em quando, pego minhas primeiras redações e me deparo, mesmo que na linguagem infantil da época, com profundas reflexões existenciais.

Aos oito anos, eu já tinha esperanças de mudar o mundo. Hoje, essa expectativa não existe mais. Entendi que, cedo ou tarde, o mundo se encontra, ainda que do jeito dele. Pura teoria de Gaya. O x da questão está nas pessoas. Elas bagunçam tanto o pobre do mundo, que ele tem crises absurdas de identidade. Está surtando, mas eu ainda acho que ele se encontra. Acho mesmo que este é o sentido da vida: encontrar um lugar no mundo, o encaixe perfeito, como uma peça de quebra-cabeça, ainda que isso demore e signifique muitas tentativas frustradas. Enquanto isso, tudo vai girando. O mundo não pára para a gente descer, nem espera que encontremos um bom assento. Às vezes, vem a mão de Deus e dá uma forcinha, coloca a gente no lugar exato, mas o grande teste consiste em identificarmos as pistas e encontrarmos nós mesmos a ilha perdida.

Ainda estou colhendo meus sinais. São muitos e o caminho parece longo. Quer saber? Não me importo. Tenho gosto pelo desafio. Olha só: agora mesmo acabou de surgir uma pista! É exatamente assim que elas aparecem: no destino disfarçado de cotidiano. O mais saboroso é tentar desvendá-lo, entender suas charadas e surpreendê-lo, fazendo de conta que caiu na sua conversa de que “hoje é só mais um dia comum”. Lá na frente, a gente mostra pra ele que o seguimos, por gosto e convicção, por sabermos que, por mais tolas que as coisas aparentem ser, elas podem nos encaixar perfeitamente neste quebra-cabeça chamado vida.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fora do alvo


Era um dia comum. Nada de diferente no céu, o mesmo clima, os mesmos vizinhos mal educados, o mesmo engarrafamento na Avenida Antônio Carlos, as mesmas árvores na Pampulha. Alice queria apenas entender o que estava acontecendo. Dentro dela, sobretudo. Tudo estava muito estranho desde o dia em que decidiu que aquele seria seu próximo amor. Fez algumas análises e concluiu que ele tinha boas características. Não era feio (nem bonito também), era inteligente, estudado, tinha um bom emprego e demonstrava lá certa sensibilidade. Era um bom alvo. Talvez tenha sido esse o erro de Alice: tratá-lo como alvo.

A conquista virou uma meta e Alice que, nem apaixonada estava, acabou acertando a si mesma. De cara percebeu-lhe o jeito alheio, o distanciamento, a imaturidade. Alice, no entanto, queria tanto acertar o alvo que tomou aquilo como charme. Tolice. Nem era charme, nem Alice era capaz de defender-se. Quando percebeu, já estava enredada por aquele homem confuso, que a levava para a mesma caminhada sem rumo, sem destino, sem sucesso. E, assim, Alice, que pensou em acertar, se viu acertada. Passou a ser alvo de um jogo estranho, que sequer sabia se era mesmo jogo, mas que lhe fazia mal porque ora a fazia feliz, ora a deixava perdida, sem respostas, sem amparo, sem companhia.

Ela não conseguia entender e, algumas vezes, nem queria, mas, naquele momento, era preciso. Sabia que ela também era um bom alvo. Era bonita, inteligente, estudada, tinha um bom emprego e sensibilidade. O que havia de errado, então? Ainda que ele não a quisesse, nada justificava aquele tipo de atitude. Ele sumira sem deixar pistas, como uma criança amedrontada e egoísta. Deixou para trás muitas possibilidades e uma boa moça, sonhadora, mas plenamente capaz de fazê-lo feliz. Dentro dela, ficara apenas a dúvida e o vazio, o espaço reservado para uma história que não aconteceu, mas que, ela sabia, traria, no mínimo, um pouco mais de tempero a duas vidas sem muito sal nem muito açúcar. Alice respirou fundo e seguiu. Finalmente, o trânsito fluía na Avenida Antônio Carlos.