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domingo, 13 de abril de 2014

Doces amarras


São seus olhos. Não que eles me vejam de maneira especial. Na verdade, talvez eles nem me vejam. Mas são eles que ainda me prendem de alguma forma. Tenho pernas livres pra seguir. Belas e cansadas pernas que insistem em ficar. Caminham suavemente em círculos, como uma dança em torno dessa perigosa trilha chamada vontade. São pernas vigilantes aos próprios desejos. E elas também desejam seus olhos. Querem ser cobiçadas por eles. Mas eles, altivos, nem notam. Não desisto. Os enigmas me atraem. Gosto de criar e o mistério é um convite à invenção. Invento você como eu quero. Bem mais interessante assim. 


Seus olhos continuam arrastando os meus, como ímãs. E eu permaneço entregue. Não sei, ao certo, se a você ou ao desenho que fiz no pensamento. Fantasia e realidade é a mistura que me move. Pouco importa que não seja saudável. O que vale é que me leva de um lugar a outro de mim mesma. Prisão com sabor de viagem. E eu me deixo levar. Pelo seus olhos e pela sensação de vôo. Simulação movida a sentidos. Ainda caio desta nuvem que me ampara! Dou de ombros. Viver é correr riscos. E eu adoro.


domingo, 17 de novembro de 2013

Sobre relacionamentos e expectativas


Gente é terreno espinhoso, campo minado. Tem que explorar com cuidado, delicadeza. E sabedoria. Relacionar-se é das tarefas mais difíceis na vida. Tem que praticar sabendo que há mil e uma possibilidades, combinações, reações. O tempo tem me ensinado que, entre todos os elementos necessários para uma convivência saudável, o desprendimento é indispensável. Tem que haver flexibilidade, solidariedade, comunhão, compreensão. Mas, ainda que tenhamos tudo isso, se não houver desprendimento, a coisa pode se complicar, ainda que seja apenas no campo interno, dentro da gente.

Explico: relacionamento, seja de qual tipo for, sempre tem boa pitada de expectativa. Eis o segredo: não esperar (ou esperar menos) das pessoas. Pequenas situações do cotidiano nos chateiam porque esperávamos que elas seguissem outro rumo. Queríamos outra reação, outra resposta, outra atitude, outra escolha. Temos que interiorizar a ideia de que, na maioria das vezes, reações, palavras e atitudes vão ser de fato diferentes do que esperávamos por um motivo óbvio: ali está outra pessoa. Nela mora uma personalidade única, um conjunto inimitável de sentimentos, conhecimentos, histórias, pontos de vista.

Receitinha de bolo: interaja com o universo sem pré-visualizações. Deixe que as pessoas te surpreendam. Talvez isso torne a vida mais saborosa. Se a resposta for diferente da que você daria, comemore: o mundo seria muito chato se todos fossem iguais. Se aquela situação não te faz feliz, analise-a, questione-se. As pessoas que se foram, as atitudes que te chatearam, os pequenos incômodos do dia a dia: tudo tem um significado e revelam algo bacana demais: as pessoas são livres, podem e devem fazer o que acham melhor. Nem sempre conseguimos entender, mas me pergunto: temos realmente que entender? O peso que damos às diferenças é o que vai determinar o quanto conhecemos da felicidade. Partilhar momentos felizes é delicioso, mas condicioná-los a pessoas e situações é arriscado.

Não seja bom nem flexível se espera algo em troca. Boas ações e gentilezas são presentes que damos ao mundo, sem esperar recompensas. Elas naturalmente virão, mas serão exatamente a consequência da liberdade das pessoas em fazer o que lhes dá prazer. E retribuir doçuras é delicioso. Ainda que não seja uma recompensa imediata e recíproca, o mundo vai tratar de trazê-la a você.

Seja você mesmo e deixe que as pessoas sejam. A maior prova de amor que podemos dar a alguém é respeitar seu livre-arbítrio. Quando a decepção bater, pense apenas no tempo precioso que ela pode te roubar. Respire fundo e continue vivendo. Sem pesos. Eu escolho o que eu carrego. E é sempre muito leve.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Em busca da felicidade


Felicidade é sob medida. O que me faz feliz é diferente do que te faz feliz. Não existe fórmula pronta. Não tem regra pra ser feliz. Felicidade é aquilo que me faz caber exatamente nesta roupa chamada eu. Seguir o próprio coração talvez seja o único conselho pertinente. Ao longo da vida, você vai ouvir muitos outros. Receitas mágicas que valem pela intenção, mas deixam a dúvida. O que é ser feliz, afinal? É instintivo. Cada um sabe bem onde está a sua felicidade. Não está no outro. Não está em uma atitude programada. Não está nas tantas regras que a vida em sociedade nos impõe. E, principalmente, a felicidade não está em modelo algum. É como um teste de DNA. O que me faz feliz tem que ser compatível comigo mesma. Ser feliz é estar confortável nesta missão esquisita de ser gente. Para isso, há muitos caminhos. Podemos experimentar quantos forem possíveis, se quisermos. Em algum momento, achamos exatamente o que nos cabe melhor. E, então, não importa o que digam, nem quantas receitas prontas nos ofereçam. A consciência de si e do que nos faz bem já é uma conquista. Ser feliz é só uma consequência.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Desaceleração


Eu preciso de pausas. Silêncio (ou música), respiro, solidão. É meu auto-resgate. A maneira que tenho de me reencontrar quando o mundo pesa. Sou movida a pensamentos. Gosto de observar. Isso inclui os outros e a mim mesma. A maneira como lidamos com gente e situações diz muito sobre nós e é peça fundamental na busca do auto-conhecimento. Cada um tem seu tempo, seu ritmo, suas necessidades. Eu exijo pausas. Caso contrário, eu me afogo. Perco-me em meio a tantas informações, tantas energias. O mundo tem áudio e vídeo demais. Nem sempre dá pra acompanhar. Não dá pra editar a vida, né? Mas dá pra colocar um respiro, fazer uns efeitos e, de alguma forma, selecionar (e deletar) o que não nos faz bem. Sou mais passional do que aparento. E não dá pra ser assim o tempo todo. É bom desacelerar de vez em quando. Deixar as coisas seguirem em slow motion pra depois dar conta de apertar firme no flash forward. Enquanto eu puder, vou lutar por isso: minhas paradas, meus silêncios, estar comigo mesma. É saudável e motivador. São as pequenas pausas que me movem.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Primavera


Começou a primavera. Linda, doce, inspiradora estação. Com ela, o renascimento, o chorinho vibrante das flores e seu colorido. O calor, a beleza, a esperança.

O que espero agora é que também renasça algo em mim. Um inverno gélido e cinzento me tomou nos últimos tempos. Não quero mais. Digo a ele que pegue sua brisa fria e vá embora. Sou primavera. Tenho cor, tenho sol, luz, perfume. Sinto muito, Seu Inverno, o senhor não cabe mais aqui!

Meu coração palpita, quer deixar brotar o que é bom. E tem muita planta bonita neste jardim. Elas andaram secas, podadas pelas chateações da vida, mas vão renascer agora. Belas e cheias de histórias pra contar. Cada flor, uma memória. E o alívio da superação. A certeza de que, ainda que o inverno seja rigoroso e pareça interminável, um dia o cinza transforma-se em colorido. E todo o esforço do plantio ou da poda terá valido a pena.Viver é um paciente exercício de jardinagem.

domingo, 18 de agosto de 2013

Amanhã


E, então, ele bateu à porta. Era discreto e silencioso, mas, eu sabia, tinha muito a me dizer. Carente, estendi os braços assim que o vi. Só eu sabia o quanto esperei. Ele pareceu constrangido, mas abraçou-me de volta. Um abraço xôxo, mas nem por isso menos importante. Ele me olhou nos olhos e nessa hora, senti-me tragada, tomada, encantada. Sim, ele tinha muito a me dizer e começou assim, naquele olhar. Meus sonhos estavam ali. Meus planos, meus medos, minhas alegrias, as lágrimas escondidas e os sorrisos bobos de quem espera que as coisas um dia sejam diferentes. 

Convidei-o para entrar. Ele não fez cerimônia. Já passava da hora. Carecia dele na minha vida. E ele, àquela altura, precisava de mim para ser. Ao entrar pela porta, ele entrava na minha história. Estava feito. Não tínhamos como voltar. Contou-me um bocado do que eu precisava saber. Outro tanto deixou que eu simplesmente vivesse. Certas coisas a gente só entende quando vive. “Estou pronta”, eu disse. Foi, então, que a transformação se deu e, de futuro, ele chegou para ficar e transformou-se em presente. No melhor sentido da palavra.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

De olhos fechados



Olho nos seus olhos imaginários e penso no quanto gosto dos seus olhos reais. Verdadeiros, porque são de carne e córnea e porque dizem quase tudo o que eu quero saber. Quase, porque guardam um tantinho de mistério, de propósito, só pra judiar ainda mais deste coração que tem gosto especial pelo oculto. Ter que descobrir tem mais sabor do que achar exposto, de graça, sem investigação nenhuma. Por isso, nunca fui de me revelar. Pelo menos não de cara. Tem que dar um trabalhinho. Faz parte do processo. É meu seguro de vida, caso as coisas não saiam como eu gostaria. Talvez eu até me jogue depois. Mas só a partir do momento em que você disser que eu posso pular. Não caio sem rede de proteção. É que já me estropiei algumas vezes.

Hoje você está presente como nunca. Quase posso sentir o toque, o compasso da respiração. De olhos fechados, ouço baixinho uma voz cantarolar sua música predileta. É você, que chega de leve no meu pensamento, a passos calmos para não me acordar. Doce brincadeira de idas e vindas. Escondo-me, mas aqui você sempre me acha. Dá raiva ser assim tão descoberta! Reclamo da sua perspicácia, mas não demora eu me rendo. Gargalho contigo, sem pudores. Entregue. Segura pela certeza de que pelo menos ali, no meu salão imaginário, basta abrir os olhos para não me machucar.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

As paradas do tempo


Um sopro gelado entra sorrateiro pela fresta da janela. Arrepia o corpo inteiro. Olho no relógio. Dez pra meia noite. Penso no tempo e seus mistérios. O ano passa rápido. Já é setembro. Plena primavera. Minha estação favorita. As pessoas ficam mais leves, eu acho. Cores, sorrisos, perfume. A vida mais gostosa de seguir. De novo, penso no tempo. Que chamem de clichê, mas a verdade seja dita: ele sabe das coisas. Fico intrigada como tudo acontece quando tem que ser. Nós e nossa ansiedade, coberta de insapiência, queremos sempre o agora. Não dá pra esperar. A urgência nos consome. E aí é que ele, o Tempo, resolve brincar de estátua. As coisas não andam, não acontecem, não chega novidade alguma. A urgência ainda nos consumindo. E o senhor Tempo lá, divertindo-se às custas da nossa infância evolutiva. Até que cansamos de nos consumir. Resolvemos olhar pro lado, enxergar o que a ansiedade acabou escondendo. Gostamos do que vemos. Percebemos novas nuances. Arriscamos outros caminhos. E, então, numa noite dessas qualquer, o Tempo resolve que a brincadeira acabou. É hora de colocar os ponteiros para andar e as histórias voltam a acontecer. Começam exatamente do ponto onde pararam. A vida segue. Até a próxima parada, que pode servir para dar fôlego, entendimento ou simplesmente nos ensinar que a espera é o que dá sabor ao fruto. Bacana mesmo esse troço chamado vida...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Esperando sinais


Gosto dos sinais. É a forma de Deus nos falar nas entrelinhas.

Uma página aberta ao acaso, um encontro inesperado, uma cena vista na rua. A música que toca na sala de espera do consultório, a ligação do amigo com quem você não falava há tempos, um programa descoberto na TV enquanto você zapeava. Um elogio repentino, um comentário descabido, um sonho absurdo, um erro de itinerário.

É a forma preferida de Deus dar seu recado. Nem sempre ouvimos, nem sempre entendemos. Nem sempre abrimos de fato o coração para receber a mensagem: sem filtros, sem desvios arquitetados pela nossa vontade.

Estar atento aos sinais é estar de olho na própria vida. Passado, presente, futuro. E quando, ainda que estejamos atentos, os sinais pareçam não vir, a conclusão é simples: o silêncio fala. A ausência é um sinal em si. E daqueles que gritam.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Tormento de artista



Tenho a inquietação do artista. A arte é um bicho que briga dentro da gente, esbraveja, quer gritar o que está guardado, o que encanta ou incomoda. E é tudo tão intenso que trazer a arte ao mundo é mesmo um parto. Dói, revolve as entranhas, às vezes custa a sair, mas, quando sai, consegue concentrar todo o sentimento. O artista é um atormentado. Pelo mundo, pelas pessoas, por suas histórias e por tudo o que lateja dentro de si, tudo o que bate querendo sair para mudar o mundo. E muda de um jeito doce. Seu tormento transforma-se em poesia, em uma tela, uma música, uma dança. E, de repente, o que era peso vira leveza. Sente-se o êxtase de colorir a vida, ainda que seu mundo interno esteja gris. É o nascimento. A alegria do parto. A satisfação de transformar dor em prazer; guerra em paz. Uma estranha forma de ser feliz.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Faxineiro Chico



A tela em branco provoca-me. Faz questão de lembrar-me o quanto tenho a dizer e não consigo. Ouço Chico para ver se sai alguma coisa. Ele, claro, remexe tudo aqui dentro, constata a bagunça e diz: “Joga algumas coisas fora, menina!” Eu bem queria. Sacolejar tudo, colocar de cabeça pra baixo e deixar cair o que não serve mais. Mania boba essa que a gente tem de se apegar às coisas, inclusive a sentimentos e pensamentos que já não fazem bem. 

Acho que Chico tem razão: tô precisando de uma faxina. Limpar tudo é abrir espaço para que coisas novas se aproximem. Não vale deixar aquele sentimentozinho que um dia, quem sabe, a gente possa precisar. Faxina é faxina. Tem que ser geral, sem sobras. Nenhuma poeirinha pra contar história. A Leveza agradece o espaço. O Novo também fica feliz. Agora ele pode vir sem medo, sem tralhas no meio do caminho. Está varrido, banido, exterminado tudo o que ocupava um lugar que pode ter um inquilino melhor. 

É isso aí, Chico! Sem asfixia, sem apego, sem bagunça interna. Assim fica mais fácil dizer o que quer que seja. Como toda faxina, dá trabalho e o corpo, desacostumado, vai doer depois. Não importa. Vale a desobstrução. A brisa circulando aqui dentro de novo. E o prazer de acordar com a sensação de ter-lhe soprando em meus ouvidos: “O mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.” É, Chico... Você sabe das coisas!

terça-feira, 30 de abril de 2013

Preto e branco



A aquarela está incompleta. Perdi meus gizes de cera. Ou alguém os teria levado? Não sei. Pouco importa. Restam apenas o preto e o branco dos contornos. Parei de desenhar. Vai ficar assim mesmo. Incompleto. Sem cor e sem fim. Um desenho à toa, de quem não tem mais o que criar. Não tem colorido. Não tem inspiração. Não tem nem personagem pra desenhar. Sem cor e sem sal. Um desenho bobo, de quem não tem chaminé pra colocar na casa, nem flores pra enfeitar o jardim. Sumiram as cores mais queridas, as mais repetidas, as que seriam traçadas com mais alegria. Sem cor e sem gosto. Um desenho safado, de quem não tem mais o que dizer. Não tem história, não tem emoção, nem trilha sonora. Um desenho e só. Sem cor e sem alma. Um desenho sem mim.

segunda-feira, 4 de março de 2013

De volta pra casa

"Nem desistir, nem tentar. Agora tanto faz.
Estamos indo de volta pra casa"
Renato Russo




Longe de todos de si mesma, Alice fazia lentamente o caminho de volta pra casa. Olhava o cenário, cada detalhe, como se quisesse fazê-lo palco da própria vida. Alice queria escrever sua história. Uma nova história, com novos personagens, outros contextos. Caminhava devagar, mas o velho coelho apressado insistia em dizer o quanto era preciso correr. Eles a desafiavam: o coelho e o tempo. Riam da sua lentidão. Gargalhavam dos seus medos. E ela, mesmo constrangida, seguia. Devagar e sempre. Um dia chegaria a seu destino e reencontraria a si mesma e aos outros. Novos cenários e outros personagens viriam. Ela seria a próxima mocinha do horário nobre. Quem seria o mocinho? Qual seria o vilão? Alice não sabia nem queria pensar nisso agora. Odiava essa mania da vida, de escolher por conta própria o nosso enredo, a nossa história. Por isso, Alice seguia devagar. Tão devagar o quanto podia. Tinha medo do que estava por vir. Sabia que mais adiante daria de cara com as escolhas que a vida fez pra ela. Algumas feitas no impulso, com a pupila saltada, o sangue fervendo. Pura paixão. E tudo o que Alice sempre buscou foi a paz. Ela temia o tempo, como o coelho instigou, mas temia ainda mais a precipitação. Por isso, engolia a ansiedade e seguia devagar. Um dia chegaria ao destino. E sobre isso, o velho coração já lhe falara. Curioso, ele dera um pulinho no futuro e voltara às pressas pra contar: “Respire aliviada, Alice. Logo ali, um pouco adiante daquela curva, à sombra de uma árvore, te espera, sem atropelos, a sua felicidade”. 

sábado, 2 de junho de 2012

A medida da inquietação



A inquietação é uma mulher de duas faces. É como o remédio que só se difere do veneno pela medida. De um lado, na medida em que nos move, nos faz buscar o melhor, questionar o que não está no lugar, testar as várias versões, experimentar os caminhos. É um bicho que te irrita e te faz andar, buscar seu espaço no mundo, tentar entender o que você quer, o que te faz bem, onde você deve estar. Estar inquieto é não estar acomodado, esperando o tempo e as pessoas passarem. Pessoas inquietas se movem, quase sempre vão longe e, não raro, se encontram, acham seu lugar. Ali entendem que são felizes e que podem exercitar suas inquietações de outras formas. É aí que está o ponto x da corda, que lhe garante o equilíbrio.

Quando passa da medida, a inquietação acaba fazendo o efeito contrário: ela para o inquieto. Alguns passos a menos, outros tentando voltar, um bocado de energia gasta na tentativa de sair do lugar, mas nem um passo a mais. É que se busca tanto ir além, questiona-se tanto, esbraveja-se tanto, trava-se uma batalha tão ferrenha e intolerante com as pessoas e a vida que se espera nada além de um mundo perfeito, a la John Lennon ou, mais brasileiramente falando, Renato Russo: um mundo em que todas as pessoas são felizes, vivendo a vida em paz. Infelizmente, este mundo não existe, essas pessoas não existem e não existe o ponto perfeito no tempo e no espaço. A busca desmedida, na verdade, não nos leva a lugar algum. Perdemos tempo e energia de um canto a outro, sem se encontrar, restando apenas um sentimento de eterna insatisfação.

Inquietar-se é bom e necessário, mas, acima de tudo, é bom entender que sempre alguma coisa vai incomodar, sempre alguém vai nos provocar instintos indesejáveis, sempre vamos pensar em colocar a trouxa nas costas e fugir, mas, se nós soubermos usar essa inquietação a nosso favor, ela só vai servir para nos colocar no lugar onde nos sentimos melhor. O mais importante: encontrar este lugar e querer ficar não significa acomodar-se. É apenas compreender que o mundo não é perfeito e não somos nós que vamos mudá-lo. Pelo menos não agora. Muitas gerações virão, se inquietarão e se aquietarão até lá. Por enquanto, só nos cabe ajudar. Com equilíbrio, sabedoria, respeito ao outro e às nossas próprias limitações. Inquietar-se faz bem, mas aquietar-se na hora certa faz infinitamente mais.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A nuvem que eu vejo


É como brincar de descobrir desenhos em nuvens. Cada um enxerga uma forma, um significado. Cada um vê o que está dentro de si. Dentro de mim há poesia. A poesia é a nuvem que eu sempre vejo. Vez ou outra escurece, vira tempestade, o vento leva embora. Mas ela volta. Volta porque faz parte mim. Volta porque sou eu. É a forma como vejo o mundo, como ele se desenha diante dos meus olhos. Minha nuvem se externa e, como tudo o que sai ao mundo, é vista de diversas formas, sob diversos olhares. Nem sempre são olhares justos. Nem sempre enxergam na nuvem o que ela realmente quer dizer. De fato, cada um vê o que está dentro de si.

Quem carrega a poesia carrega também um grande fardo: poucos são os que conseguem ler a vida com os olhos da sensibilidade. O sensível é quase sempre um estrangeiro no mundo dos homens. Cabe a ele carregar o peso da crítica, da zombaria, da injustiça. Olhos insensíveis não vislumbram o cenário. Absorvem apenas o pequeno quadro em que figuram sozinhos. Nele, não se desenham muitas nuvens. As que cabem limitam-se a mostrar o que não é bonito de se ver.

sábado, 27 de agosto de 2011

Película



Rua da Bahia. Hora do rush. Desço à pé, como há muito tempo não fazia. O cenário ganha cores nunca vistas. É um filme gravado em película, quase em câmera lenta. Meus olhos são câmeras múltiplas, rápidas, perspicazes. A luz rósea do entardecer mistura-se aos faróis dos muitos carros que ouço buzinarem na descida para o Centro. Eles têm pressa. Eu, àquela altura, já não tinha nenhuma. Os olhos seguiam, enquadrando tudo, fotografando todos.



Uma senhora pedinte, sentada à porta da Igreja de Lourdes, era parte permanente do cenário. Ninguém mais a via. O carrinho de pipoca atraía os olhares infantis. Mãozinhas espertas puxavam as dos pais, chamando o olhar para baixo, como a pedir uma parada. Ternos sisudos subiam a rua, carregando o cansaço das reuniões do dia. Ipods e similares faziam trilha sonora para passos apressados. Mesas à porta dos bares reuniam copos e gargalhadas. Cabelos roxos e vermelhos moviam-se entre braços tatuados e gesticulantes, querendo chamar a atenção do mundo. Motoristas engoliam as faixas de pedestres e, com elas, qualquer resquício de gentileza urbana.



Aos poucos, o fluxo seguia. De gente, de carros e da vida. Ela nunca esperou o engarrafamento passar para ir em frente.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Onde queria chegar


Ela era assim. Serena, tranquila. Pessoas tolas a indignavam, mas sem tirar sua pacificidade. Tinha valores claros e muitas vezes opostos aos da maioria. Ser minoria nunca foi fácil. Traz o conflito, o medo e a constante ameaça vinda do grupo dominante. Seja uma opinião radical, um olhar de preconceito ou um julgamento bobo. Eles sempre fazem questão de se manifestar.

Não, nunca foi fácil, mas nada bloqueia quem sabe o que quer. Ela sabia-se diferente, mas era certa de quem era e porque era. Isso torna tudo mais tranquilo. É bem mais fácil tirar os obstáculos do caminho quando sabe-se onde se quer chegar. Ela sabia como poucos. Por isso seguiu, driblando as ilusões da vida e pouco se importando com aqueles que achavam dominá-la. Ela sempre foi a única que se dominou. E sem nenhum tom de arrogância nisso.

Seguiu, com toda a sua serenidade e paz interior, com toda sua capacidade de amar, ainda que conseguisse ver, no interior das pessoas, tudo o que de ruim elas carregavam. Tinha faro para os defeitos alheios. Conhecia a todos minuciosamente, mas guardava-os para si, por entender que trazê-los à luz não os exterminaria. Amava as pessoas ainda assim. E isso tudo porque sabia exatamente quem era e aonde iria.

Chegou onde sempre quis chegar. Até lá, esteve boa parte do tempo sozinha. Agora, tudo era festa. A vida é mais simples do que se imagina.

domingo, 19 de junho de 2011

O que fazemos da pressa


Os meses passaram tão rápido que a sensação, às vezes, é de ter estado em transe enquanto eles corriam. Foram tão intensos, tão tensos, tão cheios de novidades, que ainda não parei para pensar o que fizeram de mim. Acho e espero, sinceramente, que não tenham feito muita coisa. Pelo menos, não no sentido de me transformarem em algo que eu não gostaria de ser.

É junho, quase julho, vejam só! E cá estou, em processo de desaceleração, depois de a vida ter me obrigado a pisar fundo no 220. Ainda tenho que manter o ritmo, é fato, mas acho que já dá para voltar a olhar as pessoas e imaginar suas histórias de vida. Uma coisa é fato: ainda sinto intensamente, ainda exercito minha visão de raio X e ainda encaro a vida como um delicioso livro de filosofia. Provavelmente, é neste capítulo que eu confronto meus valores com os de outros mundos e entendo que, nesta luta, não há fracos nem fortes. São simplesmente essências diversas que acabam por temperar a vida.

Vilã ou incompreendida, a pressa já virou personagem de importância nessa história. O que ela faz de mim ou de quem quer que seja não é o ponto chave. O x da questão é o que nós, testados pela vida, fazemos dos dias corridos e entulhados de coisas que ela nos dá. Manter-se firme e leal a si mesmo, ainda que em meio ao turbilhão, é o melhor resultado. O que há em nós, se soubermos cuidar, estará sempre seguro. Todo o resto é mero e frágil cenário.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Busca


Falta alguma coisa. Não sei dizer o que é. Abro a janela. Deixo o vento frio do início de outono tomar meu rosto e meu espírito. É noite. A lua me olha como a dizer: estamos juntas na nossa solidão. O que me toca é saber que, em algum lugar, tem alguém comigo. Respiro gostoso, enchendo os pulmões, retendo o ar, do jeitinho que aprendi nas aulas de yoga. Fecho os olhos e sinto o calor de quem me abraça em pensamento.

Ainda não sei o que falta, mas entendo perfeitamente o que me preenche. É imaterial. Entrego-me à sensação de ter sem estar. Parece loucura, mas, na verdade, é privilégio de poucos. O certo é que sou. Não importa onde ou como eu esteja. Sempre vou ser. E é essa certeza que não me deixa desistir. É essa convicção que me impulsiona e me faz entender cada respiração, cada solidão, cada aprendizado.

Não sei com quantas luas ainda vou estar. Com o passar dos anos, isso torna-se mero detalhe. Vale a certeza de saber que serei eternamente capaz de percebê-la e de perceber-me diante dela. E, da mesma forma, diante do mundo e seus meandros, das pessoas e suas complexidades, de mim mesma e minhas particularidades. É assim que o que me falta deixa de ter significado. É como se a forma de conduzir a busca fosse mais importante que o seu resultado. Na verdade, ela, a forma como buscamos algo, é o que determina aonde chegaremos. Ainda me falta um bocado, mas estou tranquila: acho que encontrei o caminho.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O que veste a alma

“Que se eu tiver que ficar nu, hei de envolver-me em pura poesia.” Vander Lee


Houve o tempo em que foi uma roupa nova, como muitas das que já teve. Uma roupa limpa, engomada, com cheiro de nova. Gostava dela. Achava-se bonita com ela. Admirava-se no espelho. Enchia o peito, erguia a cabeça sempre que estava dentro dela.

O tempo passou e a roupa deixou de ser nova. Perdeu o brilho, a goma, a beleza. E já não lhe cabia tão bem. Não havia mais prazer em sair vestindo-a, desfilando em frente ao espelho para a plateia de uma pessoa só. Já não tapava-lhe o frio, nem dava-lhe proteção. Transformou-se em apenas uma peça para cobrir-lhe o corpo.

Havia dias em que preferia a nudez. A liberdade de não ter nada escondido, de ser e estar ali, genuína e entregue a si própria, sem nada a apertar-lhe o corpo ou a condicionar-lhe as ideias. As vezes é preciso estar nu para entender o valor real da vestimenta e qual roupa nos veste melhor.

Ela estava nua. Era livre naquele instante e agora compreendia: a roupa nova e bem engomada de tempos atrás não era para ela. Ela, outrora, quis muito estar vestida, sentir-se bem, protegida por aquele corte de tecido. Precisou da nudez para entender que aquilo não era o bastante e que, mais que o corpo, aquela roupa deveria amparar-lhe a alma.

As pessoas, por vezes, escolhem roupas erradas ou ocasiões inapropriadas para usar uma veste. Rende algum desconforto, ainda que a percepção seja tardia, mas vale o aprendizado e a compreensão do que faz a moda de cada um.

Há uma roupa que, às vezes se esquece, mas nunca se despe: a essência individual. Foi assim que ela, a mulher da nossa história, esqueceu a velha roupa material, vestiu-se de si mesma e foi lá ser feliz.