terça-feira, 22 de novembro de 2011

Senhora Perfeita


Você sempre foi a aluna perfeita. Desde criança, desde sempre. Como boa aluna, você logo aprendeu que deveria honrar pai e mãe e... bingo! Você já era a filha perfeita. Os anos se passaram e a coleção só cresceu: a amiga perfeita, a namorada perfeita, a profissional perfeita. A pessoa perfeita! Você se habituou a isso, comprou a ideia e, entusiastas da sua perfeição, as pessoas ao seu redor assinaram embaixo.

Pronto. Estava lavrado em cartório: você é perfeita e não pode falhar. A partir dali, nem você, nem ninguém, lhe deram permissão para ser gente. Carne, osso, dias de mau humor e algumas cagadas. Contar uma mentirinha? De jeito nenhum! Cobiçar o vestido da amiga? Você não precisa disso! Colar na escola, enrolar no trabalho, responder a professora, acordar estressada, olhar pra outro cara? Nem pensar! Deixar de abrir mão das suas vontades, ir ao cinema numa segunda à tarde, dizer não de vez em quando, ficar sozinha em casa num sábado à noite ou quem sabe cair na balada com a roupa (e a vergonha) mais curtas que você tiver? Não, não e não. Essa não é você. Você é a Senhora Perfeita, se já se esqueceu.

Pessoas perfeitas só ganham esse honroso posto se souberem, sobretudo, serem perfeitas para as outras pessoas. Você não pode exigir nada, não pode querer nada. Pessoas perfeitas apenas se doam. Elas não merecem nada em troca. Estão sempre prontas para quebrarem o galho com um sorriso de propaganda de creme dental. Nunca precisam de nada: de um colo, de uma força, de um pouquinho de tolerância. Elas não podem se deixar levar pela lua ou pelas conjunções astrais. Elas têm hormônios em perfeita sintonia. Pensamentos em perfeita sintonia. Todos os chakras em ordem. São incansáveis. Não têm carências, não têm medos, estão sempre de saco vazio, sacam de tudo, não erram. São perfeitas!

Você questiona. Você sabe que não é perfeita, nem tem o menor apego ao título, mas foi assim que você aprendeu. Foi isso que lhe fizeram acreditar a vida inteira. E talvez tenha sido isso que tenham acreditado a vida toda também. Você nunca pôde escolher “não ser perfeita”. É, então, que você senta e espera que alguém perceba suas imperfeições e as aceite como algo absolutamente humano ou então arrisca, liga aquele famoso botão do “to nem aí” e deixa o tempo mostrar a todos que a verdadeira perfeição está na sábia decisão de Deus de nos fazer todos imperfeitos para um dia, quem sabe, entendermos alguma coisa da vida.