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sábado, 19 de outubro de 2013

Criando asas


Alice não sabe. E isso a incomoda. Sai andando pela rua, contando os ladrilhos, como quando era criança. Faz 15 graus, mas ela sente muito mais frio por dentro. Difícil explicar. Nem as botas e o casaco pesado conseguem aquecê-la. Tem algo faltando. Ou sobrando, talvez. Só o que ela sabe é que não é mais a mesma. Talvez seja só uma tempestade. Vai passar. Amanhã o dia vai estar ensolarado de novo e a boa e velha Alice vai estar de volta. Mas o coração diz que, ainda que a chuva passe, algo vai amanhecer diferente. E isso não é ruim.

Transformações sempre foram doloridas. Talvez por isso a lagarta precise do casulo. Alice também queria um, mas viver exige relações e a vida não pára pra gente virar borboleta. Tudo segue enquanto as asas rasgam a pele para crescer. Dói, é claro, mas Alice desconfia que vai valer a pena. Dá pra ver mais do mundo quando se tem asas, não é, Dona Borboleta? Um par de asas é como um par de olhos a mais, pra enxergar a vida de outros ângulos, novas perspectivas. É exatamente o que Alice precisa: perceber as diferentes formas de ser feliz. Aprumar as asinhas iniciantes e saber onde buscar o sol sempre que estiver frio como naquele dia. Ou, então, usar o novo olhar para vislumbrar o frio lá do alto e ver que ele, às vezes, é necessário e pode formar belas paisagens.

Transformar-se é uma questão de perspectiva. Olhar a si e aos outros de outro ângulo pode responder muita coisa. Ainda que faça frio e mesmo que doa, vai ser importante para aprender a voar. E quando Alice já estiver usando suas asas, vai ficar claro como água: voar é tudo o que ela deveria ter feito a vida inteira.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Quando a vida resolve falar


Era uma manhã agradável. Meia estação. A brisa soprava suave, brincando de vai e vem nos cabelos de Alice. Ela nem se dava conta, tão entretida estava lá com seus botões. Sentou-se no banco à beira da lagoa, abraçando as pernas contra o corpo. Era sua maneira inconsciente de se proteger.  Queria se esconder. Estava decidida a se isolar. Conviver é uma arte difícil.

Alice é uma pessoa sem escudos. Entrega-se de cara limpa. Acredita de fato na capacidade humana de adaptar-se às situações pelo bem comum ou de entender o que não precisa ser dito. Acontece que vez ou outra a vida resolve falar. E não tem papas na língua. A vida não se condói. Então, nos mostra sem cerimônia que a grama não era tão verde assim. Revela o que o coração de gente como Alice tenta encobrir: o lado feio do mundo.

Agora Alice tenta, em sua concha, resguardar-se de novas revelações. Nem gente, nem lugares, nem coisas. Nada mais cabe no seu espaço. Abraçou as pernas com mais força e deixou a insegurança umedecer o rosto. Ela, que sempre gostou de pontes, resolveu que é mais seguro ser ilha. Só não sabe ainda o que fazer com aquele abraço guardado e agora fadado ao desuso. Estar sozinho é para os fracos. E Alice já foi forte tempo demais.

sábado, 9 de março de 2013

Curta Alice

Zapeando na TV a cabo, encontrei uma Alice muito parecida com a nossa, que costuma dar o ar da graça aqui no blog. Acho até que a história combina com o último post, que fala sobre o tempo e as decisões que a vida toma por nós. Um curta metragem muito bacana, com Simone Spoladore e Fernando Alves Pinto. Roteiro e direção de Rafael Gomes. 

"Longe é só um lugar aonde a gente nunca vai" Alice, a do filme.




segunda-feira, 4 de março de 2013

De volta pra casa

"Nem desistir, nem tentar. Agora tanto faz.
Estamos indo de volta pra casa"
Renato Russo




Longe de todos de si mesma, Alice fazia lentamente o caminho de volta pra casa. Olhava o cenário, cada detalhe, como se quisesse fazê-lo palco da própria vida. Alice queria escrever sua história. Uma nova história, com novos personagens, outros contextos. Caminhava devagar, mas o velho coelho apressado insistia em dizer o quanto era preciso correr. Eles a desafiavam: o coelho e o tempo. Riam da sua lentidão. Gargalhavam dos seus medos. E ela, mesmo constrangida, seguia. Devagar e sempre. Um dia chegaria a seu destino e reencontraria a si mesma e aos outros. Novos cenários e outros personagens viriam. Ela seria a próxima mocinha do horário nobre. Quem seria o mocinho? Qual seria o vilão? Alice não sabia nem queria pensar nisso agora. Odiava essa mania da vida, de escolher por conta própria o nosso enredo, a nossa história. Por isso, Alice seguia devagar. Tão devagar o quanto podia. Tinha medo do que estava por vir. Sabia que mais adiante daria de cara com as escolhas que a vida fez pra ela. Algumas feitas no impulso, com a pupila saltada, o sangue fervendo. Pura paixão. E tudo o que Alice sempre buscou foi a paz. Ela temia o tempo, como o coelho instigou, mas temia ainda mais a precipitação. Por isso, engolia a ansiedade e seguia devagar. Um dia chegaria ao destino. E sobre isso, o velho coração já lhe falara. Curioso, ele dera um pulinho no futuro e voltara às pressas pra contar: “Respire aliviada, Alice. Logo ali, um pouco adiante daquela curva, à sombra de uma árvore, te espera, sem atropelos, a sua felicidade”. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

“Gosto muito de te ver, leãozinho!”



O dia em que conheceu Nara! Alice lembra como se fosse ontem: no começo do ano letivo, na padaria perto da escola. Não demorou a descobrirem que seriam da mesma turma. Quando se apresentaram, Alice, lembrou-se logo da cantora preferida da mãe: Nara Leão. Sempre associava Nara a Leão. Primeiro, pela cantora, depois, pela vaidade que foi percebendo na, então, nova amiga. Nara era um leãozinho de tão vaidosa! Alice achava divertido. Não era algo que a incomodasse.

Desde aquele encontro na padaria, muitas histórias foram escritas. Compartilharam as diversas fases da vida, as histórias e novidades que cada uma traz. Houveram brigas, claro, mas briga de amigo leal é aquela que, não importa o barulho que faça, no fim das contas sempre acaba no silêncio de um abraço. Os trabalhos da escola, as festinhas nos fins de semana, os amores platônicos, os romances de verão, as crises existenciais, as furadas da vida, as escolhas profissionais, tudo, absolutamente tudo, compartilhado amiúde.

O tempo, no entanto, o velho tempo na história de Alice, age sobre tudo: transforma coisas, pessoas e situações. Vezes para melhor, vezes para pior, outras para simplesmente diferente. O fato é que age sempre, despudoradamente. Na história de hoje, ele, claro, agiu também. Veio uma tal formatura do colegial. As duas mocinhas seguiram caminhos diferentes. Alice, como era de se esperar, foi estudar filosofia. Nara, com seu cérebro matemático, acabou na engenharia. Tudo certo até então.

Partilharam todos os primeiros passos das novas vidas. Até que um dia surgiu um caminho por onde apenas uma poderia passar. Assim foi. Alice viu Nara caminhando longe, mais leãozinho do que nunca, por uma estrada que nunca a atraiu. Antes daquela estrada, abriu-se um abismo. Ali, cairam todas as (novas?) diferenças entre as duas. Não havia mais assuntos em comum, nem convites para o fim de semana. Não havia mais cumplicidade, nem histórias compartilhadas. Tudo no fundo do abismo. Guardado na memória, transformado pelo tempo.

Alice quis, por muitas vezes, construir uma ponte ou qualquer outra coisa que as fizessem novamente andar pelo mesmo caminho ou que, pelo menos, permitisse, vez ou outra, um reencontro. Não deu certo e Alice entendeu que na vida há coisas muito difíceis de serem resgatadas. Alice aprende coisas diariamente. Com aquela história, e algumas outras que a vida acabou lhe trazendo, entendeu que nem toda amizade dura para sempre. O tempo age sobre elas e não é sempre que faz como no vinho: torna mais fino e saboroso com o passar dos anos. 

domingo, 4 de março de 2012

A volta de Alice


Alice desceu as escadas da sala de desembarque com frio na barriga. A viagem havia sido longa. E ela havia estado longe. Longe de seu espaço, longe de todos e, o mais difícil, longe de si mesma. Como em qualquer viagem, Alice aprendeu. Cresceu com os acontecimentos, com as dificuldades, aprendeu com as pessoas - mesmo com aquelas que só ensinaram-na a não colocar a mão no fogo por ninguém. Ser outro muitas vezes serve para nos mostrar quantos outros existem nas pessoas mais próximas de nós. E que nem todos são bonitos de se ver.

Era estranho voltar depois de tanto tempo imersa em outro lugar. Outros costumes, outras pessoas, outra Alice. Ser outra era questão de sobrevivência por onde ela andou. Nem sempre ela acertava na encenação, mas, de fato, ali, encenar era preciso. Pessoas como Alice não alcançam a frieza. E, por isso, em determinados lugares, com determinadas pessoas, elas sofrem. À ela, era dolorido buscar a objetividade a todo custo, era dolorido ser como os outros, era dolorido ser outra Alice quando a verdadeira Alice clamava por liberdade, enclausurada em si mesma.

Ser forte cansa e cansa ainda mais quando se sabe que ser fraco não é permitido. Alice estava exaurida. Até aquele momento. Até o momento da volta. Até descer as escadas da sala de desembarque e sentir nos pulmões cheios o ar da liberdade. Ela estava de volta. Pra casa, pra si mesma, pra vida. Alice sentia-se livre de novo. Sentia-se renovada. Como se estivesse guardada o tempo todo, esperando o momento de voltar. Plena, cheia de energia. Sensível de novo! Trazia consigo a maturidade que se ganha nos campos de batalha. A sabedoria de quem conseguiu passar por ele, sem deixar que morresse sua essência, libertando-a plenamente depois da conquista.

Alice estava de volta! Feliz, livre, Alice. Tranquila e certa de que, como após toda batalha vencida, restava-lhe, mais forte e mais serena, colher os frutos de quem mereceu chegar até aqui.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Carta ao Tempo


Ei, senhor Tempo!

Sei bem o quão rápido o senhor tem passado, não quero ser injusta, mas será que dá pra andar um pouquinho mais depressa? Espero tanto por um novo ano, uma nova vida, novas perspectivas. Não que as coisas estejam exatamente ruins. É que às vezes a gente precisa se remodelar, recolorir a vida, com outras tintas, outros pincéis, só pra ter a mesma vontade e o mesmo talento de pintar até o fim.

Eu sei – e você me conhece muito bem, sabe que eu sei mesmo - que boas novas estão por vir. E então ficamos eu e o tictac do relógio numa relação maluca de gato e rato. Estive presa, pesada, onde eu deveria estar, é certo, mas em algum lugar que não era, por essência, o meu. Ok, senhor Tempo, eu sei: o senhor coloca cada um onde deve estar. Mas nem sempre onde cada um deve estar é onde ele se sente mais à vontade. Foi isso que eu quis dizer.

O senhor ensina tudo, tem as suas medidas exatas, do tamanho da nossa necessidade de amadurecimento. Convenhamos, no entanto, que às vezes é bem chato esperar sua medida passar. Acho que este ciclo está chegando ao fim, não é mesmo? Então, por favor, se der, faz uma forcinha: passa um tiquinho mais rápido que eu não vejo a hora de ser leve de novo.

Prometo ser uma boa menina sempre que o senhor me pedir pra esperar. Combinado assim?

Abraços tempestivos (não resisti ao trocadilho),

Alice ;)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sobre aprendizados e receitas


É, Alice... Já faz quase um ano. Os dias passam rápido. Bem mais rápido, aliás, que as nossas dores. O bom da vida é que, no fim das contas, elas também acabam passando. Nem parece que um ano atrás você vivia e sentia aquilo tudo, daquele jeito, com aquela intensidade. O tempo passa e com ele passa um pouco da gente. Mudamos. E aí está você, bem diferente do que era há alguns meses. Não que você não seja mais você. Você tem sido mais Alice a cada dia. E isso te garante autonomia para absorver o positivo das transformações da vida.

Hoje você sabe que aquela vivência mais fez mal do que bem. Hoje a balança funciona. E não é curioso que seja quando você não precisa mais dela. Naquela época você precisava não tê-la. Parece maluco, mas não é. A vida nem sempre faz sentido.

Hoje você lembra as palavras e as acha frias, vazias, com o peso do “não ter o que dizer”. Faltou recheio naquele bolo. E, sabe, Alice, é muito triste viver sem recheios. Esqueça as receitas erradas, os ingredientes em falta. Pegue os que você tem em mãos e faça algo, se não saboroso, ao menos divertido. Você era leve demais para aquela massa. Continue experimentando e experimentando-se. Assim você compreende que errar a mão também faz parte da construção de um grande mestre cuca. Delícia viver.

Bon appétit!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Clar-alice


Ele a olhava de longe. Ela, claro, percebeu, mas não conseguiu assimilar. A mesa do bar estava lotada de amigas lindas. Porque ele a escolheria? Não, não devia ser pra ela - pensava. Girava os olhos ao redor, como a procurar o verdadeiro alvo daqueles olhares. Ninguém.

Sim. Ela estava sendo olhada. Não entendia, porém. A vida toda tinha se esforçado para encontrar beleza em si mesma. Por vezes, até garimpava alguma coisa, mas quase sempre achava as amigas mais bonitas que ela. Não notava, no entanto, os olhares que a perseguiam por onde andasse. Quando notava, era sempre assim: desconfiada. Um auto-boicote descarado. Impiedoso.

Alice sempre foi assim: condescendente com os outros, cruel consigo mesma. Talvez por isso sempre tenha se apaixonado pelos rapazes errados. Uma forma inconsciente de punir-se sabe-se lá porquê. Coisa estranha. De outras vidas, talvez.

Alice é doce e sonhadora. Gosta de pensar na vida e de não entendê-la. Estranho não? Alice gosta da insapiência. Talvez porque saiba que o “não saber” é a mola que move o mundo. Enquanto o homem não souber de alguma coisa, estará buscando, se movimentando. A angústia de não saber nos leva adiante.

Alice segue ignorante de seu futuro, mas sempre supondo, inventando e desinventando histórias para si mesma. Tentar definir o indefinível é seu melhor passatempo. Às vezes, um flash de lucidez e auto-solidariedade a acomete. É, então, que Alice começa a supor sobre os homens. Entende que eles podem, naturalmente, achá-la bonita. E admite que talvez realmente seja. Diverte-se de pensar que alguns olhares sejam para a aura pensante que percebem nela. Alice tem atração pelo intelectual. É quase físico. Como se inteligência e capacidade de questionar a vida fossem afrodisíacos. Ela acha graça de si e dos outros, por pensar que existam homens igualmente insanos a ponto de desejar a “cabeça” de alguém. Alice ama com a cabeça e a alma, depois com o corpo. Quando consegue unir os três, a tríade perfeita, aproxima-se do cosmos.

Por vezes, a sonhadora Alice divaga a ponto de aproximar-se de seu alter-ego: Clarice, uma mulher inquieta, mas plena; questionadora, mas segura; madura, sedenta de conhecimento, de gente, de vida. É como se Alice fosse o passado e Clarice o futuro. No presente, alguém dividido entre ambas. Alguém que traz um pouco de Alice e já tem traços evidentes de Clarice. Alguém a quem falta pouco para ser completo. Uma mulher inteira. Clar-alice. Capaz de ver, aceitar e entender os olhares do rapaz do bar. Afinal, pra quem mais eles poderiam ser?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fora do alvo


Era um dia comum. Nada de diferente no céu, o mesmo clima, os mesmos vizinhos mal educados, o mesmo engarrafamento na Avenida Antônio Carlos, as mesmas árvores na Pampulha. Alice queria apenas entender o que estava acontecendo. Dentro dela, sobretudo. Tudo estava muito estranho desde o dia em que decidiu que aquele seria seu próximo amor. Fez algumas análises e concluiu que ele tinha boas características. Não era feio (nem bonito também), era inteligente, estudado, tinha um bom emprego e demonstrava lá certa sensibilidade. Era um bom alvo. Talvez tenha sido esse o erro de Alice: tratá-lo como alvo.

A conquista virou uma meta e Alice que, nem apaixonada estava, acabou acertando a si mesma. De cara percebeu-lhe o jeito alheio, o distanciamento, a imaturidade. Alice, no entanto, queria tanto acertar o alvo que tomou aquilo como charme. Tolice. Nem era charme, nem Alice era capaz de defender-se. Quando percebeu, já estava enredada por aquele homem confuso, que a levava para a mesma caminhada sem rumo, sem destino, sem sucesso. E, assim, Alice, que pensou em acertar, se viu acertada. Passou a ser alvo de um jogo estranho, que sequer sabia se era mesmo jogo, mas que lhe fazia mal porque ora a fazia feliz, ora a deixava perdida, sem respostas, sem amparo, sem companhia.

Ela não conseguia entender e, algumas vezes, nem queria, mas, naquele momento, era preciso. Sabia que ela também era um bom alvo. Era bonita, inteligente, estudada, tinha um bom emprego e sensibilidade. O que havia de errado, então? Ainda que ele não a quisesse, nada justificava aquele tipo de atitude. Ele sumira sem deixar pistas, como uma criança amedrontada e egoísta. Deixou para trás muitas possibilidades e uma boa moça, sonhadora, mas plenamente capaz de fazê-lo feliz. Dentro dela, ficara apenas a dúvida e o vazio, o espaço reservado para uma história que não aconteceu, mas que, ela sabia, traria, no mínimo, um pouco mais de tempero a duas vidas sem muito sal nem muito açúcar. Alice respirou fundo e seguiu. Finalmente, o trânsito fluía na Avenida Antônio Carlos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Amor de livro


Era um amorzinho cult. Tinha cheiro de livro novo, desses que a gente compra, alisa a capa e fica louco para conhecer o conteúdo. Lembrava um amor de infância, inocente mesmo, sem beijo na boca e sarro atrás da prateleira. Nem por isso tinha menos sabor. Era um amor de olhares. Eles tentavam se esconder por trás das páginas dos últimos lançamentos da FLIP, mas acabavam descobertos por outros olhinhos curiosos.

João trabalhava em uma livraria metida à besta, das muitas que existem na Savassi, dessas aspirantes a café argentino. Alice não era uma cliente como as outras. Tinha um quê de personagem do Garcia Marquez, lembrava os versos de Neruda e carregava um certo mistério de Agatha Christie. Ele gostava do seu jeito hippie cult e seu ar de Clarice Lispector. Ao entrar na livraria, por sua vez, os olhos de Alice já escaneavam as estantes à procura de João. Ela também adorava o estilinho do rapaz, aparentemente despretensioso, mas que no fundo escondia deliciosas intenções. Alice gostava do seu olhar. Era um olhar firme, porém doce, a la Che Guevara mesmo. Um olhar de quem já leu Dostoievski .

À primeira vista, Alice viu apenas o vendedor de livros. O segundo olhar, depois das críticas bem construídas sobre cada edição de uma pilha, foi bem mais profundo. Ouvindo a voz suave, a descrição pausada, os comentários ponderados, a jovem deixou-se perder naqueles olhos. Eram olhos que guardavam uma biblioteca.

- O que achou? - perguntou ele.
- Ahn?
- Perguntei o que achou.
- Ah! Achei maravilhoso. - respondeu ela, com um sorriso que se via mais nos olhos do que na boca.

A partir de então, as idas à livraria tornaram-se constantes. As críticas literárias dos jornais e revistas nunca foram tão atrativas como depois daquele encontro. Elas ditavam a pauta da próxima visita. Alice decorou os horários de João e ele, então, passou a viver a expectativa de esperá-la. Os comentários sobre as obras ficaram cada vez maiores e mais elaborados. Alice interagia, fazia suas críticas também. As bienais do livro transformaram-se em “copas do mundo” da literatura.

Era um amor de livros, sorrisos e olhares. E eles não precisavam mais que isso. Era um amor que não precisava ultrapassar as prateleiras, sob o risco de perder o encanto. A livraria metida da Savassi era o cenário. Alice e João, os personagens e autores de uma história que não precisava de outros elementos. Por si só, tinha a doçura de um final feliz.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Estou atrasado, estou atrasado!

Assisti ontem o delicioso Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. A história da menina que entra em um mundo mágico sempre me fascinou. Não é por acaso que minha personagem, tão presente neste blog, chama-se Alice. Como estou passando por alguns dias de bloqueio criativo (leia-se TPM), resolvi postar um texto das antigas que remete à história de Lewis Carroll. Espero que gostem!



Alice abriu os olhos. Apesar de escura, a cortina deixava escapar, por uma fresta, a claridade do dia que já começara. Colocou o travesseiro sobre a cabeça, em sinal de irritação. Fechou os olhos novamente, tentou dormir. Foi em vão. Na realidade, não sabia sequer como conseguira pregar o olho naquela noite. Acabara adormecendo pelo cansaço gerado pelas lágrimas. Ao acordar, teve a impressão de que não dormira. O turbilhão de pensamentos que a invadiu na noite anterior retornou com a mesma impiedosa voracidade de horas atrás.

Alice não conseguia compreender como pessoas, coisas e acontecimentos andavam tão descompassados em sua vida. Lembrou o coelho do conto infantil - "Estou atrasado, Estou atrasado!" - e então se sentiu como a menina do País da Maravilhas. As coisas em sua vida nunca estavam no lugar. Hora a atrasada era ela, hora, as pessoas. E, mais uma vez, Alice se sentiu como a xará da história inglesa: quase afogada em suas próprias mágoas.

Ficou mais alguns minutos na cama. Não queria levantar, mas era preciso. Arrumou-se e saiu. Não sabia ao certo aonde iria. Sabia apenas que não queria ficar ali. Caminhou sem rumo por alguns instantes, até que se decidiu ir ao parque da cidade. Era um belo parque; cheio do verde das árvores e do colorido das flores. De lá se ouvia o canto dos pássaros e o som da grama crescida sacudida pelo vento. O sossego não lembrava sequer de longe o barulhento trânsito da metrópole.

Alice sentou-se à sombra de uma árvore e mergulhou em seus pensamentos. Ria-se do próprio tormento, imaginando que, embora andasse mil léguas, seus pensamentos ainda a alcançariam. Dedicou-se às lembranças. Não que esta fosse a sua vontade, mas elas afloravam em sua mente, como se nunca a tivessem deixado. Alice sentiu saudades. Lembrou logo que a saudade é um consolo, uma lembrança de felicidade. E, naquele momento, Alice não estava feliz.

A triste moça pensava em como momentos tão especiais haviam se transformado em mágoa e dor. Ela não queria respostas. Elas não adiantariam mais. A perda era um fato consumado. O que poderia ser feito, a partir de então, era evitar que tudo se repetisse. O mais difícil para Alice, naquela ocasião, era saber que "evitar que tudo se repetisse" incluía os bons momentos.

Alice sabia que não errara por querer e que, na mesma medida, os outros não erravam propositalmente. A natureza egocêntrica do ser humano só deseja acertar. Alice, no entanto, errara. E erraram também aqueles que fizeram Alice chorar. Doía-lhe saber que o relógio era o que mais pesava naquele desfecho: "Hora a atrasada era ela, hora, as pessoas." Sentia-se como se, tal qual no conto, uma rainha perversa condenasse: "Cortem as cabeças!" Uma rainha de Copas (ironicamente simbolizada por corações) condenando-lhes por não terem sabido jogar.

Alice levantou-se e retornou a passos lentos. Doía-lhe a cabeça, os olhos, o corpo... Doía-lhe ainda mais onde o físico não seria capaz de chegar. Tinha esperanças, no entanto. Ela se recuperaria. Fora, aliás, com o intuito de não interromper a cicatrização das feridas que a jovem havia se decidido por não burlar as leis do tempo. Estava, agora, de volta à sua vida. Tentava esquecer os jogos do passado e a rainha que a tentara castigar. Jogava paciência. Era tudo o que precisava naquele instante.