
A música lembrava ele. A melodia fincava-lhe o coração sem sutileza. Trazia-lhe à mente o par de olhos que tanto admirava, o gosto e a textura daqueles lábios, a audácia daquela língua. Era quase como sentir de novo as mãos, o abraço, a temperatura. Era uma canção triste, de letra dolorida. Maltratava-lhe mais por dizer-lhe a verdade: tudo acabou. Lá estava ela novamente, solitária com seus pensamentos, enquanto ele, talvez, sequer lembrasse de tudo o que houvera. Ela, ainda que tentasse esquecer, recordava cada detalhe.
As coisas aconteceram de maneira inusitada. O encontro, o encanto, o desencontro, a entrega, a fuga. Como se algo tivesse misturado a cronologia dos fatos. Como se fosse a história certa no tempo errado. Agora ela sofria as consequências de sua falta de habilidade com o calendário. Em pensamento, pedia a Chronos, Deus do Tempo, uma chance de fazer diferente. Sabia que teria de esperar. Talvez uma retaliação pela ansiedade de outrora ou, o mais provável, uma oportunidade de aprender a graça da paciência e da serenidade.
O aparelho de som silenciou a música. Agora ouvia apenas seus pensamentos. Eles quase encontravam-se com os dele, que, do outro lado da cidade, lembravam o abraço dela, que esperava um dia ter novamente.