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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Viagens


Ana Carolina começou a cantar suave no som do carro, acionando o botão do pensamento em Clarice. É mais gostoso pensar com música. É como se as notas fossem também um meio de transporte. Nos primeiros graves e agudos, Clarice já não estava ali. O carro seguia sozinho em retas e curvas, cumprindo o papel de ir a algum lugar. Clarice também viajava, por outros meios. Estava sozinha mais uma vez. Sabia o quão deliciosa pode ser uma companhia, mas estar sozinha nunca a incomodou. Gostava de estar consigo mesma.

Há pouco, aquele homem havia ido embora. Na verdade, seus pensamentos há tempos não estavam mais ali. Clarice notava, mas disfarçava, na tentativa de encontrar um caminho que o trouxesse de volta. Não encontrou. Ele foi indo, aos poucos, até sumir no horizonte, onde ela não alcançava mais. Incomodou-se ao ver a estrada vazia, mas ela não se esforçou em segui-lo. Não havia mais motivos. Agora, mais uma vez, caminhava sozinha. E faria isso muito bem, como tantas vezes na vida.

Olhou em volta. Estava chegando ao seu destino. O carro foi diminuindo o ritmo, até parar onde o esperavam. Clarice respirou fundo até estacionar também os pensamentos. Pouco antes de desligar o carro, Ana Carolina ainda cantarolava: "ficar sozinho é pra quem tem coragem". Verdade. Ainda bem que isso Clarice tem de sobra.


domingo, 29 de dezembro de 2013

Tintin


Minha amiga Elis diria que é clichê, que eu sou muito sugestionável e que nada muda além de um número. Eu me aborreceria, se não a conhecesse tão bem. Elis se faz de durona e banca a diferente, mas no fundo é igualzinha a todo mundo: ela também faz autoavaliações todo fim de ano. Eu nem faço questão de disfarçar: impossível não me render à egrégora mundial. Eu, que penso demais o ano inteiro, vou me privar disso justo agora, quando a renovação do calendário bate à porta e me oferece milhões de variáveis filosóficas?

É dezembro. O corpo está cansado, se arrasta sob a promessa do descanso e da chegada de um novo ciclo. Cabeça e coração sofreram estímulos diversos ao longo do ano. Hora de incinerar todo o lixo emocional. O que eu levo do ano que se vai é leve. E o melhor é saber que de leve o tal ano teve pouca coisa. 

A vantagem de parar um pouco no fim do ano é exatamente esta: faxinar a alma, peneirar os meses que passaram, deixando apenas o que eles trouxeram de bom: as relações, o amadurecimento, as gargalhadas e os abraços que se instalaram na memória. As decepções e as dores já cumpriram seu papel. Então, que fiquem lá, no meio do lixo não-reciclável de 2013. As cicatrizes, se inevitáveis, que sejam esquecidas no dia-a-dia e, quando lembradas, sirvam apenas para dizer que fui forte e venci os traumas. Aprendi, cresci. E deixei os pesos todos para trás.

Normal que agora também venham expectativas e curiosidade sobre o que Deus vai escrever em mais um capítulo da vida. Ainda não inventaram uma vacina contra as tolices humanas. Então, eu sigo, como todo mundo, esperando o que a vida vai trazer. Vou trilhando o caminho, tentando acertar pra diminuir o lixo a ser incinerado no final do ano que vem. Melhor do que jogar fora o que não serve mais é aproveitar ao máximo o que você construiu ao longo dos meses: porque é fácil de carregar, porque traz conforto, porque alimenta a alma. Que sejam muitas as doçuras e levezas que eu carregue comigo em 2014.  

À minha amiga Elis, e a você que me lê, sugiro esse saudável exercício de limpeza. E deixo os votos de um delicioso e feliz número novo. Tintin. ;)

domingo, 15 de abril de 2012

Depois da tempestade, a borboleta


Choveu forte. Choveu muito. Foi uma tempestade, com direito a ventos e trovoadas. O céu estava escuro e escura estava a alma de Clarice. Estranho que agora, quando a tempestade se fora, houvesse ainda um gosto amargo na boca, uma picadinha no peito, uma dorzinha daquelas chatas, fininhas, mas que vão durando, incomodando como o ferrinho do dentista.

Clarice ainda estava se levantando. O corpo doído, lenhado da luta. O céu clareava, o sol já dava o ar da graça. Restava-lhe apenas levantar e seguir. Sorrir o alívio de quem conquistou a vitória. Curioso é que ela ainda tivesse medo. Que ainda vacilasse na caminhada. Logo Clarice, tão forte e decidida. Verdade que também sempre trouxe em si a certeza da própria humanidade. Sabendo-se humana, Clarice sempre foi tolerante com as próprias fraquezas: uma hora, afinal, ela teria de chorar. Em algum momento, teria de ter medo; alguma situação haveria de deixá-la insegura. E ela sempre permitiu-se isso. Na medida certa, na duração exata para que aquilo não a impedisse de seguir em frente. A luta não havia sido fácil. Nunca foi fácil ser Clarice.

Ainda doía. A luta, a quebra, a falta, as mudanças repentinas, o desconhecido. Ter de descobrir novamente o caminho! Nada de anormal. Mais uma questão de respirar e esperar o tempo passar. Agora ela queria apenas um pouco de casulo. A borboleta estava se fazendo, colorida, nova, bela. E viria cheia de energia. Renovada. Mais Clarice do que nunca.

sábado, 5 de novembro de 2011

Colo


Vem, Clarice! Pousa a cabeça aqui no meu colo. Conheço bem esses olhos inquietos. Sei que tem alguma coisa doendo aí dentro. Não precisa falar nada. Apenas deita aqui e me deixa passar as mãos nos seus cabelos. Faz de conta que elas têm o dom de organizar seus pensamentos. Chora. Pode chorar alto ou baixinho. Eu não ligo e vou fingir que não estou vendo. Tudo bem? A gente fica assim, eu cuidando de você e você esquecendo do mundo, o tempo que for necessário.

Aos poucos vou entendendo tudo. Como se meu corpo fosse capaz de ler as suas mágoas, como se o seu desabafo viesse por meio da pele, do contato. Tem algumas coisas cozinhando aí dentro, não é, Clarice? Deixa sair o vapor. Quanto mais fechado a gente fica, mais as coisas fazem pressão dentro da gente. Uma hora a gente enfraquece e explode. Dá pra ser forte sem deixar de ser humano. Também dá pra ser leve, sem deixar fazer o que precisa ser feito. É uma questão de equilíbrio.

Às vezes falta um colinho, como este de agora. Há dias em que a gente quer um sorriso e esse sorriso não vem. Às vezes, a gente se dá e não recebe nada em troca. Pessoas e situações nos decepcionam. É normal, Clarice. O que não pode é a gente deixar essas coisas ganharem mais importância do que merecem. O que não pode é deixarmos as chateações nos impedirem de vermos as bençãos da vida, de enxergarmos a nós mesmos.

Parte das suas lágrimas é saudades de si mesma. Que tal marcar um encontro com o espelho? Há coisas que só podemos fazer sozinhos. Mergulhar dentro de si, fazer uma faxina, até se achar novamente, limpa e inteira. Sem pressões, sem decepções, sem lágrimas. Meu colo apenas para matar a saudade.

domingo, 26 de junho de 2011

Ao som de passado


Acordei e coloquei aquele CD para tocar. Sem mais pretensões. Juro. Talvez, caro leitor, você diga: “Não disfarce, Clarice, já te conheço.” Alguns textos depois, tenho que admitir: conhece como poucos. Mas desta vez preciso apresentar-lhe um lado que desconhece: nas minhas filosofações, quase nunca faço algo de propósito. Coloquei lá o tal CD, sim, mas sem um motivo específico. Coloquei por colocar, vontade de ouvir, cantar e viajar ao som das músicas que embalaram parte da minha vida. O que não lembrei, na escolha do CD, é de qual parte foi essa.

Não precisaram muitos acordes para que viesse tudo à memória. Tudo e todos. Todo. Parece até que senti os mesmos cheiros, as mesmas sensações, ouvi os mesmos sons e que o mesmo rubor nas faces me acometeu sem piedade. Veio a paixão, vieram as dúvidas, aquele abraço e aqueles olhos que, mesmo abertos, pareciam fechados, de tão hermética era aquela alma. Claro, em algum momento da canção, também vieram as dores, as decepções, as sensações desagradáveis que tantas vezes aquela relação me provocou.

Como as músicas podem ser missionárias em nossas vidas, não? Acho que elas também são uma forma de Deus nos dizer algumas coisas. Desta vez, Ele me disse: “já deu, Clarice. Se há ainda algum resquício daquele passado no seu coração, joga fora, não tem mais lugar para ele aí.” E assim foi. Deixei o CD tocar, como se, com cada nota, fossem embora pelos ares todas aquelas sensações que, sabe-se lá porquê, eu havia suportado por tanto tempo. Foi uma limpeza. Uma faxina pela qual eu precisava passar. Para arrumar bem o armário, é preciso trazer à tona toda a tralha que insistimos em guardar porque “um dia podemos precisar”. Aquelas canções foram muito claras: dessa tralha eu não preciso mais.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Clar-alice


Ele a olhava de longe. Ela, claro, percebeu, mas não conseguiu assimilar. A mesa do bar estava lotada de amigas lindas. Porque ele a escolheria? Não, não devia ser pra ela - pensava. Girava os olhos ao redor, como a procurar o verdadeiro alvo daqueles olhares. Ninguém.

Sim. Ela estava sendo olhada. Não entendia, porém. A vida toda tinha se esforçado para encontrar beleza em si mesma. Por vezes, até garimpava alguma coisa, mas quase sempre achava as amigas mais bonitas que ela. Não notava, no entanto, os olhares que a perseguiam por onde andasse. Quando notava, era sempre assim: desconfiada. Um auto-boicote descarado. Impiedoso.

Alice sempre foi assim: condescendente com os outros, cruel consigo mesma. Talvez por isso sempre tenha se apaixonado pelos rapazes errados. Uma forma inconsciente de punir-se sabe-se lá porquê. Coisa estranha. De outras vidas, talvez.

Alice é doce e sonhadora. Gosta de pensar na vida e de não entendê-la. Estranho não? Alice gosta da insapiência. Talvez porque saiba que o “não saber” é a mola que move o mundo. Enquanto o homem não souber de alguma coisa, estará buscando, se movimentando. A angústia de não saber nos leva adiante.

Alice segue ignorante de seu futuro, mas sempre supondo, inventando e desinventando histórias para si mesma. Tentar definir o indefinível é seu melhor passatempo. Às vezes, um flash de lucidez e auto-solidariedade a acomete. É, então, que Alice começa a supor sobre os homens. Entende que eles podem, naturalmente, achá-la bonita. E admite que talvez realmente seja. Diverte-se de pensar que alguns olhares sejam para a aura pensante que percebem nela. Alice tem atração pelo intelectual. É quase físico. Como se inteligência e capacidade de questionar a vida fossem afrodisíacos. Ela acha graça de si e dos outros, por pensar que existam homens igualmente insanos a ponto de desejar a “cabeça” de alguém. Alice ama com a cabeça e a alma, depois com o corpo. Quando consegue unir os três, a tríade perfeita, aproxima-se do cosmos.

Por vezes, a sonhadora Alice divaga a ponto de aproximar-se de seu alter-ego: Clarice, uma mulher inquieta, mas plena; questionadora, mas segura; madura, sedenta de conhecimento, de gente, de vida. É como se Alice fosse o passado e Clarice o futuro. No presente, alguém dividido entre ambas. Alguém que traz um pouco de Alice e já tem traços evidentes de Clarice. Alguém a quem falta pouco para ser completo. Uma mulher inteira. Clar-alice. Capaz de ver, aceitar e entender os olhares do rapaz do bar. Afinal, pra quem mais eles poderiam ser?

domingo, 22 de agosto de 2010

Os poemas que me assombravam


Clarice. Os dicionários dizem que meu nome significa claridade. No entanto, nada estava claro para mim. Eram duas horas da manhã; a casa às escuras. Acendi a luz do banheiro, olhei-me no espelho. As olheiras denunciavam as semanas que eu não dormia. Observei meus olhos, como se os inspecionasse. Eles já eram frios, indiferentes ao tormento que me consumia.

Voltei ao quarto, sentei-me apoiada à cabeceira da cama. Há dias, a situação era a mesma. Não sei precisar quando tudo começou; sei que pareceu durar anos. No começo, pensei que fosse apenas o fruto de uma imaginação atormentada pela solitude. Estava só, perdida em um país que não era o meu, suportando as discrepâncias culturais e todos os mitos que cercavam minha “brasileirice”.

Com o passar dos dias, vi que meu problema não se tratava, simplesmente, de estar sozinha. A diferença era sutil: o que me afligia era a convivência comigo mesma. Não era a falta dos outros o que me atordoava. Era o excesso do meu eu. Tentei fugir o quanto pude. Mudei de profissão, de país, de vida. Tudo em vão. Eu sempre estava lá para me atormentar; eu sempre fui o meu próprio fantasma.

Recordo que, durante um tempo, cheguei a experimentar a serenidade. Tinha um bom emprego, uma boa vida social e o telefone servia de consolo nos momentos de maior solidão. Entretanto, na vida de um poeta, nada pode ser cem por cento satisfatório. É indispensável que haja um conflito. Caso contrário, ele pode sucumbir. A poesia, então, mostrou-me que os conflitos eram inumeráveis.

Durante toda a minha vida, a literatura fora a única coisa que me manteve de pé, mas naqueles dias... Naqueles dias, era o meu algoz. Meus livros, meus cadernos antigos, as agendas guardadas, tudo o que me relacionasse à literatura insistia em me torturar. Eu estava sendo traída. Eu, que sempre me dediquei aos textos que lia e escrevia, eu, que me entreguei à ela de corpo e alma, estava sendo apunhalada.

Meus versos, de repente, ganharam vida. Esperaram o momento mais propício da minha solidão para gritar em meus ouvidos tudo o que eu não queria ouvir. Eu fugia do que era e eles insistiam em pular diante de meus olhos, tais como espelhos censores. Tudo o que de meu constituía aqueles poemas, as múltiplas faces que utilizei ao longo dos anos, se rebelava como a dizer: “não podes fugir, estamos aqui para lembrar-te de quem és”.

Eu não dormia, não tinha mais apetite. A todo instante, eles me interpelavam. As fraquezas diante da paixão, os medos, o egoísmo, a arrogância. Faziam questão de destacar todas as minha falhas. De nada adiantou mantê-los presos em gavetas durante anos. Na verdade, eu sempre soube que um dia eles poderiam tornar-se livres. E fraca, como sempre, nada fiz para evitar.

Naquela noite, enquanto me olhava no espelho, decidi virar o jogo. De alguma forma, o que estava acontecendo seria útil: eu aprenderia a me enfrentar. Era chegada a hora do combate que sempre temi: eu contra eu mesma. Permaneci na cama por alguns minutos, pensando em uma forma de me libertar.

Olhei em volta e, não sei o porquê, a prateleira de livros me chamou a atenção. Talvez porque os livros, até então, só tinham feito aumentar o meu transtorno. Meus olhos foram direto a um deles: Fernando Pessoa. Lembrei imediatamente dos versos célebres: “O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente.” Há muito, eu não sabia o que era sorrir mas, naquele momento, sorri da esperteza de Pessoa. Ele não era mais capaz de versejar, mas me dera a solução.

Recordando os versos do poeta português, entendi que só havia uma maneira de deter a poesia que me assombrava. Tudo o que eu tinha a fazer era usar, como arma e escudo, a própria poesia. Se eles insistiam em repetir mentiras que eu acabei fazendo verdades, havia chegado o momento em que eu lhes fingiria verdades nunca ditas.

Estapeei meu próprio rosto, como se quisesse despertar de um transe que durou anos.
Meus poemas eram criação minha e eu não poderia deixar que me dominassem daquela forma. Eles não seriam meu Frankstein de papel. Respirei fundo e fiz aquilo de que tanto fugira: peguei caneta e papel. As idéias fluíram naturalmente; vinham em forma de enxurrada e, com elas, ressurgiam as lágrimas que eu já não tinha. Eu escrevi; escrevi como se fosse a primeira vez, com o mesmo entusiasmo e vigor dos primeiros dias.

Naquelas páginas eu me entreguei sem medo. Disse àquela parte do meu eu, a que sempre me acovardou, tudo o que eu ainda tinha de belo em mim. Eu ainda guardava motivos de orgulho e aqueles versos audazes sabiam disso. Por mais que tentassem gritar meus erros ao mundo, eles precisavam admitir que este mesmo mundo, aliado ao tempo, ensinara-me a errar menos.

Eles se calaram. Os poemas que me assombravam converteram-se em silêncio e voltaram às suas gavetas. Eu venci. A partir daquela noite, não tive mais medo. Resgatei, em mim, a literatura da qual fugira. Entendi que nossa relação seria sempre permeada de intrigas e faíscas, mas que isso não diminuiria a paixão recíproca. É apenas o reflexo da intensidade que nos une.

Amo a literatura e ela me corresponde. Bastou-me, naquele instante, compreender que, para que a poetisa fale, não é preciso que a pessoa se cale. Somos uma e gritar juntas nos garante o equilíbrio. A partir daquela madrugada, entendi que versejar minhas virtudes é torná-las latejantes e escrever meus problemas é terapia incomparável. Naquela noite, o Frankstein que eu destruíra não fora a antologia que guardei e, sim, uma parte inútil de mim. Os poemas, na verdade, fizeram-me feliz.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O retorno de Clarice


Ah, Clarice! Tão pensante! Tão metida à mulher, tão independente, tão ousada, tão livre, tão segura. Tão sozinha! Já nem se lembra da última vez que se apaixonou. É bom - disso ela se lembra bem -, mas é uma sensação que ficou perdida no tempo, meio amarelada, como os poemas que gostava de escrever na adolescência. Guarda apenas a lembrança de alguns romances que acabaram perdidos com as intolerâncias da juventude.

Achou, por algum tempo, que podia viver bem sozinha. Agora, no entanto, bate a falta de sentir de novo. Sábio Balzac que reverenciou a mulher de 30! A diferença existe. Depois dos 30, o olhar desanuvia, a cabeça esfria e o coração começa a considerar novas possibilidades. Já sabe se defender melhor, começa a ficar velhaco. O de Clarice está assim. E ela quer se apaixonar de novo.

Engraçado! Se Murphy também gosta de agir nos terrenos do coração, Clarice está sob a força da Lei. Nem um moço, de longe sequer, chama a sua atenção. Nenhum olhar masculino toca além da sua vaidade. Logo agora que ela quer tanto. Por algum tempo, ela chegou a pensar que a culpa fosse toda sua. Talvez, tanto tempo sem gostar de alguém a tivesse deixado fria de vez. Mas, no fundo, ela sabia que não era isso. Clarice tem alma de artista e artistas nunca perdem a capacidade de amar. Podem, sim, mudar o foco por algum tempo, seja por opção, auto-defesa ou falta de oportunidades do destino, mas esfriar o coração, isso não. Vai contra a arte.

Clarice sabe que ainda pode acontecer. Na verdade, sente que vai ser logo e, se uma coisa nunca lhe faltou, é a intuição. Ela tem medo. Não sabe se ainda sabe viver um grande amor. Mas é um medo que vem num lampejo, na verdade. Ela sabe que sentir, amar verdadeiramente, é como andar de bicicleta ou escrever as poesias da adolescência: o retorno pode até ter seus tropeços, mas esquecer... Ah, isso ninguém esquece.