
"Um cara que compra morangos com leite condensado e vinho, quando vai receber uma mulher não pode estar bem intencionado. Ele queria me comer. E, hoje, passados alguns meses, digo mais: ele só queria me comer", disse Elis à amiga, sem papas na língua, com a naturalidade e o tom alto de voz que lhe eram peculiares.
Elis era um figura singular. Tinha a meiguice que o nome suave supunha, mas era dona de uma sinceridade que beirava a grosseria. Dizia verdades como quem comenta a novela das nove. Talvez fosse assim que tivesse que ser: que a verdade nos parecesse mais natural que a novela das nove. Acho que invertemos os papéis. Mas, enfim, era de Elis que falávamos. Curiosa Elis. Olhinhos atentos como os de uma criança. Vez ou outra soltava um comentário infantil. Ora com perspicácia, ora com inocência, mas sempre sincero. Acho que, na verdade, Elis era uma criança que ficou grande. Bem, nem tão grande assim. Elis era miúda. Os anos, no entanto, foram impiedosos. Lá estava ela no mundo dos adultos e ela já havia entendido: no mundo dos adultos há caras que só querem "te comer".
Elis era bacana. Gostava de ler, aprender coisas novas, gostava de ajudar, gostava de ouvir e dar seus palpites cheios da (nem sempre caridosa) verdade. Era uma garota bacana, mas garotas bacanas também encontram canalhas na vida. Elis sabia que tinha encontrado mais um. Aliás, nas suas análises psicológicas (registre-se: Elis adora fazer análises psicológicas), ela nem o achava tão bandido assim.
Ele estava perdido. Queria Elis, mas, mais que isso, queria encontrar no corpo dela os brios perdidos de outrora. Ele sabia que podia despertar o amor de uma mulher. Elis seria a certeza que lhe faltava. Era isso: descobrir que ainda podia desejar e ser desejado. Depois disso, ir embora. Criar laços seria demais. Ele não podia, tinha medo. Um completo incompetente afetivo. "Um filho da puta!", bradava o ego ferido de Elis. Talvez ele fosse mesmo. Cedo ou tarde ele descobriria-se assim. A imaginativa Elis já era capaz de vê-lo repetir frente ao espelho: "Filho da puta!" Dessa vez, por entender que o sacaneado não era ninguém mais do que ele mesmo. "Perdeu, playboy!", disse Elis nos seus pensamentos. E saiu, cheinha de si.