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terça-feira, 16 de julho de 2013
Tolices do amor
Ela passava ali todos os dias. Cumprimentava. Raramente puxava papo. Normalmente eram diálogos breves, mas duravam tempo suficiente para o coração quase sair pela boca. Ele trabalhava na banca de revistas perto do trabalho dela. Tudo começou com um comentário sobre a capa de um magazine que ela comprou. Ele também gostava daquele tipo de leitura. E, assim, um gosto em comum puxou a imensa lista de afinidades. Na maioria das vezes, a timidez só permitia dizê-las com um oi e um sorriso. E isso bastava. As coincidências cabiam todas ali, naquela pequena curva do rosto.
Não demorou e ela percebeu que sorria pra ele em outros momentos: quando ele não estava por perto! Eram sorrisos ainda mais espontâneos. Surgiam das lembranças. E, então, ela quis passar pela banca com mais frequência, comprar novas revistas, cumprimentar mais vezes, puxar outros assuntos. Tudo tinha sabor de peraltice da adolescência. Esfriava a barriga, rendia boas memórias, mas não ia além. Os assuntos eram rigorosamente pautados pelas manchetes do dia, o sorriso era sempre pueril e os olhares brincavam de pique-esconde.
Ela contentou-se, então, em querê-lo às escondidas, nas horas vagas, entre uma lembrança e outra. Triste amor platônico, despertaria a piedade do coração mais frio! À cada passagem em frente à banca, ela procurava por ele e esperava em silêncio que ele tomasse uma atitude. Ele limitava-se a sorrir ou comentar as novas edições das revistas. Ela afligia-se com o desinteresse dele. Mal sabia que nele também doía o desinteresse dela. E, assim, seguiam, limitados pela timidez trocada. A promessa de felicidade abafada pelo medo.
O ritual era diário: esperavam-se, sorriam, cumprimentavam-se e controlavam heroicamente a emoção de estarem juntos. Depois seguiam cada qual o seu dia, a pensarem um no outro, imaginando como seria se aquele singelo encantamento fosse correspondido.
domingo, 26 de maio de 2013
Tempo de reviver
O homem subiu a rua, procurou o número. Pela imensa fila formada à porta, não demorou a identificar o endereço. Incorporou-se ao grupo, tentando não permitir que o desânimo o mandasse de volta para casa. Precisava passar o tempo de alguma maneira, ocupar a mente. Aquele seria um longo dia. Pegou o jornal. Na primeira página, o jornal anunciava o aumento salarial para parlamentares: R$ 24.500, dizia a edição. João olhou novamente a seção de classificados e conferiu o salário oferecido pelo emprego ao qual era candidato. Estava longe de alcançar os quatro dígitos! Sentiu um aperto no peito; como o daqueles que não vêem mais o que fazer.
Na fila, uma mulher carrancuda distribuía fichas cadastrais aos candidatos. João retirou a caneta do bolso e pôs-se a preencher o papel. Nome, telefone, endereço, dados convencionais. Mais adiante, pediam-se informações sobre o último emprego. João desviou os olhos do papel, reticente. Doeu-lhe a lembrança da empresa onde fizera sua vida. Nela, havia aprendido tudo o que precisava para ter o respeito dos colegas. Lá, também conhecera a esposa, mãe dos quatro filhos que, já adultos, demonstravam a educação e a hombridade que lhes foram passadas na criação.
Tentando não se emocionar, João desviou novamente o olhar para a publicação que trazia nas mãos. As manchetes não conseguiram, porém, sustentar-lhe a fuga. Mais uma vez, o homem perdeu-se em seus pensamentos. O jornal também suscitava lembranças. Sempre gostara de acompanhar as notícias. Ainda estava fresco na memória o dia em que anunciou satisfeito, à mulher e aos filhos, a compra da assinatura de “O Tempo”, recém-lançado na época.
Naquelas páginas, João havia acompanhado os últimos 10 anos de sua vida e do mundo em que estava inserido. As conquistas e dores da humanidade, as grandes catástrofes, as guerras. A morte da princesa Diana, o pentacampeonato brasileiro, o 11 de setembro, a despedida de João Paulo II, a eleição do primeiro presidente de esquerda da história do Brasil, as grandes fraudes, o mensalão.
Folheando o caderno de economia, João recordou o dia em que, com olhos marejados, leu a notícia da falência da empresa da qual fora funcionário durante anos. Ele de fato “vestira a camisa” daquele lugar. Diversas foram as vezes em que recebera títulos de destaque pelo desempenho e dedicação. Tentava retribuir ao emprego o que este proporcionava em sua vida: os estudos dos filhos, o conforto da família, os momentos de lazer.
João fechou os olhos, respirou fundo. Já de volta do passado, observou a fila. Pessoas jovens e maduras disputavam a vaga. Diversos deveriam ser os seus anseios e múltiplas as suas experiências e necessidades. João sentia-se mal por ter de estar ali depois de toda uma vida de dedicação e amadurecimento. Seus 20 anos de experiência já não valiam. Muitas foram as vezes em que perdeu uma oportunidade por “não se enquadrar no perfil”.
Aos poucos a fila caminhava. Nos candidatos, o semblante era de quem esperava. Não por uma entrevista de emprego, mas por uma chance. Era tudo o que João também esperava naquele momento. Uma chance de voltar a despertar o orgulho dos filhos, de ter novamente a admiração da esposa, de abandonar o sentimento de vergonha que sentia a cada vez que voltava para casa trazendo um não como resposta. Suspirou. Olhou o papel em suas mãos e continuou a preenchê-lo.
João sentiu falta de alguns itens naquela ficha cadastral. Nela, não se perguntava sobre o homem, o ser humano que a estava preenchendo. Suas perguntas não iam muito além de um nome acompanhado de informações práticas. João sabia que, lá dentro, na sala de entrevistas, ele seria apenas um número em um papel com algumas anotações.
A fila andava lentamente. Alguns ambulantes aproveitavam a oportunidade para garantir o pão do dia. João os observava admirado. “É uma saída”, pensou. A economia informal sempre foi a rede de amparo de muitos dos que se cansam de enfrentar, em vão, as longas filas por um emprego. João, porém, não pensava em desistir. Ele mantinha a crença de que o novo ano pudesse ser realmente melhor.
Já se aproximando do primeiro lugar da fila, o homem apressou-se em concluir o preenchimento do cadastro. Foi então que se deparou com a última pergunta. Deu um sorriso leve, com a malícia que os três anos de desemprego haviam tornado rara em seus dias. À pergunta, - “Por que você merece a vaga?” – João respondeu com um desabafo. Sua história, seus desejos e frustrações, seus anseios. Entregou o papel na recepção, sem participar da entrevista. Talvez isso lhe custasse outro não. Talvez os selecionadores julgassem que ele “não se enquadra no perfil”, mas, certamente saberiam quem era aquele homem e que ele merecia, como poucos, aquela vaga.
João saiu em paz, com a leveza de quem se fez ouvir. Cantarolava sua música predileta e seguia na chuva, entre as sacolas e as sombrinhas alheias. O espaço já não importava. Pelo menos naquele instante, ele era o mesmo de anos atrás. As mãos se encaixavam nos bolsos vazios. O coração, porém, estava pleno de esperanças. Era tempo de reviver.
* Conto classificado em quinto lugar no concurso Tempo de Contos, do jornal O Tempo. 2007.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Onde queria chegar

Ela era assim. Serena, tranquila. Pessoas tolas a indignavam, mas sem tirar sua pacificidade. Tinha valores claros e muitas vezes opostos aos da maioria. Ser minoria nunca foi fácil. Traz o conflito, o medo e a constante ameaça vinda do grupo dominante. Seja uma opinião radical, um olhar de preconceito ou um julgamento bobo. Eles sempre fazem questão de se manifestar.
Não, nunca foi fácil, mas nada bloqueia quem sabe o que quer. Ela sabia-se diferente, mas era certa de quem era e porque era. Isso torna tudo mais tranquilo. É bem mais fácil tirar os obstáculos do caminho quando sabe-se onde se quer chegar. Ela sabia como poucos. Por isso seguiu, driblando as ilusões da vida e pouco se importando com aqueles que achavam dominá-la. Ela sempre foi a única que se dominou. E sem nenhum tom de arrogância nisso.
Seguiu, com toda a sua serenidade e paz interior, com toda sua capacidade de amar, ainda que conseguisse ver, no interior das pessoas, tudo o que de ruim elas carregavam. Tinha faro para os defeitos alheios. Conhecia a todos minuciosamente, mas guardava-os para si, por entender que trazê-los à luz não os exterminaria. Amava as pessoas ainda assim. E isso tudo porque sabia exatamente quem era e aonde iria.
Chegou onde sempre quis chegar. Até lá, esteve boa parte do tempo sozinha. Agora, tudo era festa. A vida é mais simples do que se imagina.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Tempo
“Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou.” Legião Urbana

A música lembrava ele. A melodia fincava-lhe o coração sem sutileza. Trazia-lhe à mente o par de olhos que tanto admirava, o gosto e a textura daqueles lábios, a audácia daquela língua. Era quase como sentir de novo as mãos, o abraço, a temperatura. Era uma canção triste, de letra dolorida. Maltratava-lhe mais por dizer-lhe a verdade: tudo acabou. Lá estava ela novamente, solitária com seus pensamentos, enquanto ele, talvez, sequer lembrasse de tudo o que houvera. Ela, ainda que tentasse esquecer, recordava cada detalhe.
As coisas aconteceram de maneira inusitada. O encontro, o encanto, o desencontro, a entrega, a fuga. Como se algo tivesse misturado a cronologia dos fatos. Como se fosse a história certa no tempo errado. Agora ela sofria as consequências de sua falta de habilidade com o calendário. Em pensamento, pedia a Chronos, Deus do Tempo, uma chance de fazer diferente. Sabia que teria de esperar. Talvez uma retaliação pela ansiedade de outrora ou, o mais provável, uma oportunidade de aprender a graça da paciência e da serenidade.
O aparelho de som silenciou a música. Agora ouvia apenas seus pensamentos. Eles quase encontravam-se com os dele, que, do outro lado da cidade, lembravam o abraço dela, que esperava um dia ter novamente.

A música lembrava ele. A melodia fincava-lhe o coração sem sutileza. Trazia-lhe à mente o par de olhos que tanto admirava, o gosto e a textura daqueles lábios, a audácia daquela língua. Era quase como sentir de novo as mãos, o abraço, a temperatura. Era uma canção triste, de letra dolorida. Maltratava-lhe mais por dizer-lhe a verdade: tudo acabou. Lá estava ela novamente, solitária com seus pensamentos, enquanto ele, talvez, sequer lembrasse de tudo o que houvera. Ela, ainda que tentasse esquecer, recordava cada detalhe.
As coisas aconteceram de maneira inusitada. O encontro, o encanto, o desencontro, a entrega, a fuga. Como se algo tivesse misturado a cronologia dos fatos. Como se fosse a história certa no tempo errado. Agora ela sofria as consequências de sua falta de habilidade com o calendário. Em pensamento, pedia a Chronos, Deus do Tempo, uma chance de fazer diferente. Sabia que teria de esperar. Talvez uma retaliação pela ansiedade de outrora ou, o mais provável, uma oportunidade de aprender a graça da paciência e da serenidade.
O aparelho de som silenciou a música. Agora ouvia apenas seus pensamentos. Eles quase encontravam-se com os dele, que, do outro lado da cidade, lembravam o abraço dela, que esperava um dia ter novamente.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Ícaro sem asas

- Você não gosta de voar, Ícaro? Então vem! - dizia sorrindo e saía rodopiando, braços suspensos, até o meio do salão.
Eu gostava de vê-la dançar. Parecia mesmo um pássaro, leve e doce em seu vestido lilás esvoaçante. Gargalhava de longe, debochando da minha timidez, sem entender que eu a observava em silêncio parte por acanhamento, parte por pura admiração. Ela parecia livre e indiferente às mazelas da vida. Eu tinha inveja disso. Eu queria ser assim. Sabia que não era capaz de enxergar a vida com a mesma naturalidade que ela e isso me tornava impotente. Incapaz, inclusive, de fazê-la feliz.
A forma como passava por cima dos problemas e, até mesmo, das desfeitas que eu por muitas vezes lhe fazia, beirava a inocência. Mas sei que, na realidade, ela conhecia perfeitamente minhas tolices e deficiências. Sabia o quão frágil eu sou diante dos meus próprios sentimentos. Conhecia cada um dos meus medos e sabia da minha inércia. Nem dança, nem vôo, nem atitudes. Eu não era capaz de nada. Contraditório, de fato, se compararmos à história de meu xará, Ícaro, filho de Dédalo, da Grécia Antiga, que arriscou a vida pelo sonho de voar, pelo desejo da liberdade.
Sou um Ícaro sem asas. Um Ícaro que sequer tenta voar. Por um lado, estou preso a uma bola de ferro chamada passado, escravo de meus próprios fracassos. Por outro, me amarro a um futuro que, embora longínquo, está perfeitamente desenhado na minha cabeça. Ela não. Ela veste-se de coragem e vai embora. “Seja o que Deus quiser!” É dona de uma fé que em mim morreu faz tempo, se é que um dia chegou a existir.
Sei que ela me quis. E quis intensamente, como tudo na vida. Talvez ainda sinta algo, mas, não bastasse o que faço a mim mesmo, fiz a ela o mal de machucar-lhe as asas. Não foi por crueldade. Eu também a queria. E talvez por querê-la e admirá-la tanto, mais uma vez, sucumbi ao medo. Enterrei-me no submundo que criei. Eu não saberia voar junto dela. Ela teria que fincar os pés na terra, junto comigo, nessa vida sem graça que me dei. Não seria justo.
Hoje entendo que ela quis me resgatar. Ela desejou ardentemente salvar-me de mim mesmo. Esforçou-se. Foi paciente, estendeu-me a mão incontáveis vezes. E eu nem sempre estendi a minha de volta. Acho que é justo estar onde estou. No íntimo, sei que só eu mesmo posso me libertar. A dúvida que me incomoda é se mereço, de fato, essa libertação. Além da certeza, preciso de coragem. E coragem não se faz da noite para o dia. Acho que ela me ensinou uma parte. Resta-me tentar sozinho agora. Enquanto isso, continuo vendo-a dançar, livre como um pássaro. Bonita. Feliz. Quem sabe, se eu criar asas à tempo, consiga alcançá-la? Ainda posso honrar meu nome e, como o Ícaro da Grécia, aprender a voar.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Amor de livro

Era um amorzinho cult. Tinha cheiro de livro novo, desses que a gente compra, alisa a capa e fica louco para conhecer o conteúdo. Lembrava um amor de infância, inocente mesmo, sem beijo na boca e sarro atrás da prateleira. Nem por isso tinha menos sabor. Era um amor de olhares. Eles tentavam se esconder por trás das páginas dos últimos lançamentos da FLIP, mas acabavam descobertos por outros olhinhos curiosos.
João trabalhava em uma livraria metida à besta, das muitas que existem na Savassi, dessas aspirantes a café argentino. Alice não era uma cliente como as outras. Tinha um quê de personagem do Garcia Marquez, lembrava os versos de Neruda e carregava um certo mistério de Agatha Christie. Ele gostava do seu jeito hippie cult e seu ar de Clarice Lispector. Ao entrar na livraria, por sua vez, os olhos de Alice já escaneavam as estantes à procura de João. Ela também adorava o estilinho do rapaz, aparentemente despretensioso, mas que no fundo escondia deliciosas intenções. Alice gostava do seu olhar. Era um olhar firme, porém doce, a la Che Guevara mesmo. Um olhar de quem já leu Dostoievski .
À primeira vista, Alice viu apenas o vendedor de livros. O segundo olhar, depois das críticas bem construídas sobre cada edição de uma pilha, foi bem mais profundo. Ouvindo a voz suave, a descrição pausada, os comentários ponderados, a jovem deixou-se perder naqueles olhos. Eram olhos que guardavam uma biblioteca.
- O que achou? - perguntou ele.
- Ahn?
- Perguntei o que achou.
- Ah! Achei maravilhoso. - respondeu ela, com um sorriso que se via mais nos olhos do que na boca.
A partir de então, as idas à livraria tornaram-se constantes. As críticas literárias dos jornais e revistas nunca foram tão atrativas como depois daquele encontro. Elas ditavam a pauta da próxima visita. Alice decorou os horários de João e ele, então, passou a viver a expectativa de esperá-la. Os comentários sobre as obras ficaram cada vez maiores e mais elaborados. Alice interagia, fazia suas críticas também. As bienais do livro transformaram-se em “copas do mundo” da literatura.
Era um amor de livros, sorrisos e olhares. E eles não precisavam mais que isso. Era um amor que não precisava ultrapassar as prateleiras, sob o risco de perder o encanto. A livraria metida da Savassi era o cenário. Alice e João, os personagens e autores de uma história que não precisava de outros elementos. Por si só, tinha a doçura de um final feliz.
domingo, 22 de agosto de 2010
Os poemas que me assombravam

Clarice. Os dicionários dizem que meu nome significa claridade. No entanto, nada estava claro para mim. Eram duas horas da manhã; a casa às escuras. Acendi a luz do banheiro, olhei-me no espelho. As olheiras denunciavam as semanas que eu não dormia. Observei meus olhos, como se os inspecionasse. Eles já eram frios, indiferentes ao tormento que me consumia.
Voltei ao quarto, sentei-me apoiada à cabeceira da cama. Há dias, a situação era a mesma. Não sei precisar quando tudo começou; sei que pareceu durar anos. No começo, pensei que fosse apenas o fruto de uma imaginação atormentada pela solitude. Estava só, perdida em um país que não era o meu, suportando as discrepâncias culturais e todos os mitos que cercavam minha “brasileirice”.
Com o passar dos dias, vi que meu problema não se tratava, simplesmente, de estar sozinha. A diferença era sutil: o que me afligia era a convivência comigo mesma. Não era a falta dos outros o que me atordoava. Era o excesso do meu eu. Tentei fugir o quanto pude. Mudei de profissão, de país, de vida. Tudo em vão. Eu sempre estava lá para me atormentar; eu sempre fui o meu próprio fantasma.
Recordo que, durante um tempo, cheguei a experimentar a serenidade. Tinha um bom emprego, uma boa vida social e o telefone servia de consolo nos momentos de maior solidão. Entretanto, na vida de um poeta, nada pode ser cem por cento satisfatório. É indispensável que haja um conflito. Caso contrário, ele pode sucumbir. A poesia, então, mostrou-me que os conflitos eram inumeráveis.
Durante toda a minha vida, a literatura fora a única coisa que me manteve de pé, mas naqueles dias... Naqueles dias, era o meu algoz. Meus livros, meus cadernos antigos, as agendas guardadas, tudo o que me relacionasse à literatura insistia em me torturar. Eu estava sendo traída. Eu, que sempre me dediquei aos textos que lia e escrevia, eu, que me entreguei à ela de corpo e alma, estava sendo apunhalada.
Meus versos, de repente, ganharam vida. Esperaram o momento mais propício da minha solidão para gritar em meus ouvidos tudo o que eu não queria ouvir. Eu fugia do que era e eles insistiam em pular diante de meus olhos, tais como espelhos censores. Tudo o que de meu constituía aqueles poemas, as múltiplas faces que utilizei ao longo dos anos, se rebelava como a dizer: “não podes fugir, estamos aqui para lembrar-te de quem és”.
Eu não dormia, não tinha mais apetite. A todo instante, eles me interpelavam. As fraquezas diante da paixão, os medos, o egoísmo, a arrogância. Faziam questão de destacar todas as minha falhas. De nada adiantou mantê-los presos em gavetas durante anos. Na verdade, eu sempre soube que um dia eles poderiam tornar-se livres. E fraca, como sempre, nada fiz para evitar.
Naquela noite, enquanto me olhava no espelho, decidi virar o jogo. De alguma forma, o que estava acontecendo seria útil: eu aprenderia a me enfrentar. Era chegada a hora do combate que sempre temi: eu contra eu mesma. Permaneci na cama por alguns minutos, pensando em uma forma de me libertar.
Olhei em volta e, não sei o porquê, a prateleira de livros me chamou a atenção. Talvez porque os livros, até então, só tinham feito aumentar o meu transtorno. Meus olhos foram direto a um deles: Fernando Pessoa. Lembrei imediatamente dos versos célebres: “O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente.” Há muito, eu não sabia o que era sorrir mas, naquele momento, sorri da esperteza de Pessoa. Ele não era mais capaz de versejar, mas me dera a solução.
Recordando os versos do poeta português, entendi que só havia uma maneira de deter a poesia que me assombrava. Tudo o que eu tinha a fazer era usar, como arma e escudo, a própria poesia. Se eles insistiam em repetir mentiras que eu acabei fazendo verdades, havia chegado o momento em que eu lhes fingiria verdades nunca ditas.
Estapeei meu próprio rosto, como se quisesse despertar de um transe que durou anos.
Meus poemas eram criação minha e eu não poderia deixar que me dominassem daquela forma. Eles não seriam meu Frankstein de papel. Respirei fundo e fiz aquilo de que tanto fugira: peguei caneta e papel. As idéias fluíram naturalmente; vinham em forma de enxurrada e, com elas, ressurgiam as lágrimas que eu já não tinha. Eu escrevi; escrevi como se fosse a primeira vez, com o mesmo entusiasmo e vigor dos primeiros dias.
Naquelas páginas eu me entreguei sem medo. Disse àquela parte do meu eu, a que sempre me acovardou, tudo o que eu ainda tinha de belo em mim. Eu ainda guardava motivos de orgulho e aqueles versos audazes sabiam disso. Por mais que tentassem gritar meus erros ao mundo, eles precisavam admitir que este mesmo mundo, aliado ao tempo, ensinara-me a errar menos.
Eles se calaram. Os poemas que me assombravam converteram-se em silêncio e voltaram às suas gavetas. Eu venci. A partir daquela noite, não tive mais medo. Resgatei, em mim, a literatura da qual fugira. Entendi que nossa relação seria sempre permeada de intrigas e faíscas, mas que isso não diminuiria a paixão recíproca. É apenas o reflexo da intensidade que nos une.
Amo a literatura e ela me corresponde. Bastou-me, naquele instante, compreender que, para que a poetisa fale, não é preciso que a pessoa se cale. Somos uma e gritar juntas nos garante o equilíbrio. A partir daquela madrugada, entendi que versejar minhas virtudes é torná-las latejantes e escrever meus problemas é terapia incomparável. Naquela noite, o Frankstein que eu destruíra não fora a antologia que guardei e, sim, uma parte inútil de mim. Os poemas, na verdade, fizeram-me feliz.
sábado, 20 de março de 2010
O vizinho

Olhou pela fresta da cortina. Ele estava lá de novo. Do outro lado, na janela do seu apartamento. Moravam em um desses condomínios novos, que mostram claramente que tudo o que a construtora queria era ganhar espaço. As janelas eram tão próximas que pareciam extensão do apartamento vizinho. Mudaram-se na mesma semana. Já no primeiro dia, alguns olhares denunciaram a inspeção mais que natural quando um homem e uma mulher se vêem pela primeira vez.
Naquele ato rotineiro, ela lembrou-se de tudo. Moravam ali há quase seis meses e nenhuma palavra havia sido trocada. Só olhares pelas janelas. Ele sempre sem camisa. Ela com os pijamas nada comportados dos quais gostava. Eram íntimos sem nunca terem se falado. Incoerências da vida moderna.
Ela gostava de ver o vizinho pelas frestas da cortina. Uma espécie de Big Brother da vida real. Sabia que ele gostava de vê-la também. Fez o flagrante várias vezes. Era sempre seguido de cabeça baixa e cortinas fechadas.
Custou até se cruzarem nos corredores do prédio pela primeira vez. Foi estranho ver o outro fora daquela moldura chamada janela. Primeiro, foi só um bom dia. Depois vieram outros. Na janela, tudo permanecia igual. Apenas olhares de soslaio. Era como se a janela criasse uma aura especial e quebrar o silêncio significasse invadir o terreno alheio. Lá fora, os cumprimentos rotineiros evoluíram para um “qual é seu nome?”. A partir daí, não é difícil imaginar a história.
Começaram trocando impressões sobre o condomínio. O cachorro da vizinha que não parava de latir, as contas que haviam subido sem explicação, a conservação mal feita. Quando perceberam, já estavam desabafando histórias do trabalho e falando da família. Ambos moravam sozinhos.
Vizinhos podem ser bons companheiros nos momentos de solidão. E foi isso o que aconteceu. Tinham a beleza e o vigor da juventude. Lógico que isso se transformaria, fácil, em romance. O primeiro beijo a deixou desconcertada. Ele aconteceu na despedida, quando ele ia da casa dela para a dele, logo em frente. Ela, como é inevitável a toda e qualquer mulher, imaginou uma vida inteira depois daquele beijo. E se o namoro não desse certo? Como seria ter que vê-lo todos os dias, sem camisa, do outro lado da janela? Sim, foi só um beijo, mas ela é mulher e mulheres têm a triste tendência de tentarem prever o que não precisa ser previsto.
Ela quase acertou dessa vez. Foram muitos beijos depois daquele, mas o namoro não aconteceu. Havia uma coisa de pele, motivada pela curiosidade excitante de descobrir o que havia, de fato, do outro lado da janela. A proximidade era cômoda. A química era boa. Homens, no entanto, borram-se de medo de que, cedo ou tarde, as previsões femininas pós-primeiro beijo se tornem realidade. Alguns deles encaram o tal medo. Outros fogem. Foi o que ele fez. Era o melhor a ser feito por um homem jovem, belo e que mora sozinho. Ainda tinha muito o que curtir a vida. Ela também. Só ainda não sabia disso.
Não demorou muito e os beijos calientes voltaram a ser apenas “bons dias”. Felizmente, ainda existiam os “bons dias”. Ela recuperou-se logo. Entendeu que havia muitos outros vizinhos no mundo e que ela ainda tinha muitas boas histórias para prever. Era feliz assim. Tinha um segredo, porém. Ainda o espiava sem camisa pela fresta da cortina, que agora, no entanto, era escura. E de tecido bem mais grosso.
sábado, 6 de março de 2010
Coisas que elas devem saber

As mulheres deviam saber que homens também se apaixonam. Eu diria até que existe uma corrente de pensamento que acredita que homens são seres incapazes de se entregarem ao amor. Balela. Eles são, sim, um bando de medrosos que não querem parecer tolos. Resistem, mas acabam rendendo-se a alguém. Eu me junto à corrente de Fernando Pessoa, que disse que “cartas de amor não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. E essa não é uma visão pessimista. O ridículo do amor é necessário à vida. E, resistentes ou não, os homens também se entregam a ele.
Foi assim com Ícaro. Antes de prosseguir, aliás, melhor apresentá-lo. Sei tanto dele que às vezes esqueço dessas formalidades. Ele é um cara bacana, cabelos pretos lisos, olhos escuros com um quê de invasores, um corpo legal (o que, na minha visão, vale dizer, significa não ser gordo nem magro, nem alto, nem baixo). É bonito, mas eu arriscaria dizer que é mais fofo que bonito (as mulheres entendem o que isso quer dizer). Fofo não é gordinho. É um daqueles caras que dá vontade de levar pra casa e fazer cafuné. Pois bem: Ícaro era um bonito mais fofo que bonito.
Não pense, no entanto, que ele não tinha personalidade. Tinha muita. Talvez por isso demorou a se apaixonar de verdade. Normalmente, acabava se interessando pelas mulheres que mais o desafiavam. Conquistava-as mais pelo gosto de vencê-las. E foi assim, sem nenhum relacionamento profundo, até que ela apareceu. A primeira mulher que Ícaro não conseguiu vencer. Não demorou muito, ela o venceu. Ele se apaixonou.
Dessa vez, foi ele quem correu atrás. Como mulher, confesso que adorei ver a situação se inverter. Ele penou um tiquinho. Mereceu. Mas ela também não conseguiria resistir muito tempo a toda a graça de Ícaro. Rendeu-se, por sua vez, mas, o fato é que foi bem depois dele. Ficaram juntos por um tempo, só beijinhos, até que Ícaro, como bom moço, fez o pedido. Ela aceitou, ainda insegura. E foi assim que ela seguiu todo o namoro. Ele, apaixonado.
Importante dizer que homens apaixonados não só existem, como são pura imagem do que é mais intenso e ridiculamente afetivo, bem à la Fernando Pessoa. Ícaro foi um desses. Foi fiel e sempre disposto a fazer as vontades dela. Não que fosse o homem perfeito (esse, sim, não existe), mas chegou algumas vezes a desconsiderar as próprias vontades para agradá-la.
Ela era uma boa namorada, fiel e carinhosa, mas um observador mais atento perceberia que havia um descompasso. Ela não o amava com a mesma intensidade. Talvez nem o amasse. Não que fizesse por mal. Acho que nem mesmo ela havia se dado conta do que não sentia. Seguiram juntos e supostamente apaixonados até que um dia ela percebeu. Não foi bem de uma hora pra outra. O desencanto é um processo gradativo.
Foi difícil, mas ela pôs fim ao namoro. Ícaro achou que não suportaria. Era sua primeira desilusão afetiva. Foi difícil entender. Principalmente quando lembrava tudo o que havia se passado entre eles. As mulheres também deviam saber que homens são muito mais frágeis diante dos males do coração. E não estou falando de veias entupidas. Acho incrível como um homem abandonado chega ao fundo do poço. É um desespero que quase dói na gente, que não tem nada com a história.
Ícaro também sofreu assim. O que ele não percebia (e todos na situação dele não percebem) é que na vida o tempo é um santo remédio. As mulheres sabem bem disso. Por isso, se recuperam tão rápido. Eu mesma tenho meu tempo de “luto”. É o suficiente para esvaziar o peito de mágoas, fazer um balanço de tudo e sacudir a poeira. Ícaro também sacudiu a dele, mas demorou um bocadinho. Homens não apenas se apaixonam, como, quando acontece, é difícil fazê-los entender que não era para sempre. As mulheres deviam saber disso. E ensiná-los antes do “tarde demais”. Pena que não pude avisar Ícaro à tempo.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
A bruxa de Street Land

Ela era uma bruxa. Dizem as más línguas que já tinha eliminado pelo menos três. Morava no centro de Street Land, um povoado aparentemente amigável, bem na divisa entre Real e Imaginário. Não era uma bruxa assim com pés de galinha, vassoura e verruga na ponta do nariz. Era até bonita. Não era bem uma beleza espetacular, mas atraía olhares masculinos. Pobres daqueles que se deixavam encantar! Com esses, era ainda mais impiedosa. Não tinha pudores em dizer não. Menos ainda em dizer os motivos da negativa. Triste lembrar que, na maioria das vezes, são justamente os motivos que machucam.
No fundo, ela tinha medo. Bruxas medrosas são mais comuns do que parece. São medos de diferentes naturezas, mas, principalmente, há o medo de serem superadas. Isso pode acontecer, por exemplo, quando ela se apaixona. Quando alguém se entrega ao amor, acaba, de certa forma, refém do outro, não tem jeito. E bruxas não admitem isso. Acontece também quando alguém parece melhor que ela. Seja na arte ou no ofício, no jeito de ser que seja... Ela não aceita. Bruxas sofrem do mal de Narciso e não aceitam dividir palco e holofotes com ninguém.
Quando ela se irritava, logo se via. Sua fumacinha negra espalhava-se pela sala, pela casa, pelas ruas. E ai de quem cruzasse seu caminho! Saía distribuindo feitiços por onde passasse. Alguns maiores que os outros. Ela tinha lá suas simpatias. O que ela não imaginava é que um dia as coisas poderiam mudar. Foi, então, numa noite dessas mesmo, de fumaça negra no ar, que eles se esbarraram. Já estava pronta para soltar seus impropérios, quando o olhou nos olhos. Eram olhos diferentes. Eles a compreendiam. Não que fossem olhos frios como os dela. Eles, na verdade, conseguiam vê-la além da capa escura.
Nasceu ali uma amizade diferente. Talvez a primeira da vida dela. Foi tão natural que ela nem percebeu que estava na condição à qual mais resistia o tempo inteiro: totalmente entregue. Ele gostava dela mesmo sabendo que estava diante de uma bruxa. Na verdade, nem a via tão bruxa assim. Conhecia seus segredos, entendia seus feitiços. Ela não sabia, claro. Teria crises só de imaginar ser descoberta.
Ele conhecia sua fragilidade.Talvez até se identificasse em algumas delas. Ele não era bruxo, porém. Não como ela. Era um homem comum, que tinha como hobby entrar na alma das pessoas. A dela era fechada. Alma de bruxa. Mas ele entrou. Conseguiu transpor as barreiras e, do outro lado, encontrou uma bruxa quase boa. Entendeu que seus ataques eram pura defesa. Percebeu que a bruxa por baixo da capa queria muito ser uma pessoa legal. Queria carinho.
Ele tentou ajudá-la. Sutilmente, sem que ela notasse. Era um bom rapaz. Sabia que a tentativa lhe renderia alguns espinhos. A amiga bruxa costumava ferir quem se aproximava. Natureza de bruxa. Ele quis tentar mesmo assim. Acabou ferido, como previsto, mas foi mais longe do que qualquer outra pessoa havia conseguido. Ao menos com ele, ela era menos bruxa. Ao poucos, bem aos poucos, estava aprendendo que podia viver sem a capa.
Ele foi forte. Contam em Street Land que permanece firme. Mesmo com ele, ela só percebia que lançara os espinhos, quando era tarde demais. Seguiram amigos, porém. Nas ruas por onde a bruxa passava, sua fumaça ainda inebriava, seus feitiços ainda faziam efeito. Sabia o povo, no entanto, que, em algum momento, em algum lugar, ela havia mudado. Enquanto ele estivesse ao seu lado, havia esperança.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Metamorfoses de Alice

Choveu a noite toda. Era muito cedo e a chuva fina persistia, dando à manhã escura um ar ainda mais deprimente. Alice no entanto precisava retomar a vida. As coisas aconteciam lá fora, indiferentes ao vazio que ela sentia. Carros, pessoas, dinheiro, interesses, tudo transitava no mesmo ritmo, acelerado e frio, enquanto nela tudo era lento e pedia um pouco mais de calor. Alice saiu. Ainda chovia, mas seus pensamentos não tinham medo de chuva. Enfrentaram grandes tempestades nos últimos tempos.
Agora os pingos caíam suaves, quase como carícia, e ela deixava-se levar – seu hobby predileto – pelas divagações. Deu-se conta do quanto tudo estava diferente, principalmente em si mesma. Trazia da antiga Alice apenas alguns valores e crenças. A maioria das convicções de outra época foi embora, derrubada pelos tropeços da vida, pelas certezas que só a vivência pode trazer. Era agora uma Alice mais madura e mais serena. Começava a entender as razões dos “mais velhos”. Alice já era quase um deles, o que não significava ser antiquada ou inflexível.
Careta definitivamente sempre foi uma característica que, ainda que o ar retraído aparentasse, Alice nunca teve. Gostava de conhecer pessoas e suas histórias secretas. Achava curioso confiarem a ela tantos segredos “inconfessáveis”. Era curioso, mas Alice gostava disso. Gostava de desvendar a diversidade do mundo. Engenheiro talentoso esse que criou os homens!
Alice tentava entender a engenhoca humana nas sutilezas do dia-a-dia. Vezes entendia, vezes não. É o que tornava o objeto ainda mais complexo: nenhum exemplar é igual ao outro. A humanidade é formada de produtos em escala absolutamente desiguais! Não é aconselhável rotulá-los, pois há sérios riscos de fugirem do previsto. Só mesmo uma inteligência sobre-humana para construir algo assim.
De tempos em tempos, Alice dava uma pausa nos pensamentos para olhar em volta. Apreciava a chuva, as ruas, as árvores, os prédios. Ria de si mesma e emergia novamente no exercício individual de filosofia. Filosofar para Alice era quase como respirar. Gostava do verbo, mas tinha receio de usá-lo impropriamente. Quando falava em “Filosofia”, lembrava-se dos grandes filósofos da história e não queria parecer pretensiosa demais, equiparando-se a eles. Filosofava, sim, mas sabia seu patamar e que ele estava indiscutivelmente abaixo de Platão, Aristóteles, Sócrates ou mesmo dos genuínos filósofos modernos, a quem tanto admirava.
Alice era, portanto, uma mulher com pés no chão. Tinha lá suas viagens ao conhecido País das Maravilhas, mas sabia que a volta era certa e bem real. Seus mundos haviam mudado também. No seu País imaginário, muita coisa era diferente de outros tempos: outros sonhos, novas perspectivas e desafios. A realidade também já não era a mesma. Talvez por isso a sensação de vazio naquela manhã. Mas Alice sabia que era passageira e logo estaria plena de novo. Aprendera várias vezes a nascer para novos mundos, novos sentimentos, outros olhares, novas histórias em sua própria história.
Ela era naquele dia exatamente o resultado de todos os fenômenos naturais que a vida lhe trouxe. Reconhecia-se e entendia-se como nova pessoa. Deixava para trás, mais uma vez, a velha casca. Não era, definitivamente, a Alice de outrora. Parou os pensamentos por um instante. Sorriu. Não era, também, a Alice de tempos futuros. A sabedoria de Deus, engenheiro dos homens e da vida, consistia exatamente em permitir que o mundo não pare.
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