domingo, 22 de agosto de 2010

Os poemas que me assombravam


Clarice. Os dicionários dizem que meu nome significa claridade. No entanto, nada estava claro para mim. Eram duas horas da manhã; a casa às escuras. Acendi a luz do banheiro, olhei-me no espelho. As olheiras denunciavam as semanas que eu não dormia. Observei meus olhos, como se os inspecionasse. Eles já eram frios, indiferentes ao tormento que me consumia.

Voltei ao quarto, sentei-me apoiada à cabeceira da cama. Há dias, a situação era a mesma. Não sei precisar quando tudo começou; sei que pareceu durar anos. No começo, pensei que fosse apenas o fruto de uma imaginação atormentada pela solitude. Estava só, perdida em um país que não era o meu, suportando as discrepâncias culturais e todos os mitos que cercavam minha “brasileirice”.

Com o passar dos dias, vi que meu problema não se tratava, simplesmente, de estar sozinha. A diferença era sutil: o que me afligia era a convivência comigo mesma. Não era a falta dos outros o que me atordoava. Era o excesso do meu eu. Tentei fugir o quanto pude. Mudei de profissão, de país, de vida. Tudo em vão. Eu sempre estava lá para me atormentar; eu sempre fui o meu próprio fantasma.

Recordo que, durante um tempo, cheguei a experimentar a serenidade. Tinha um bom emprego, uma boa vida social e o telefone servia de consolo nos momentos de maior solidão. Entretanto, na vida de um poeta, nada pode ser cem por cento satisfatório. É indispensável que haja um conflito. Caso contrário, ele pode sucumbir. A poesia, então, mostrou-me que os conflitos eram inumeráveis.

Durante toda a minha vida, a literatura fora a única coisa que me manteve de pé, mas naqueles dias... Naqueles dias, era o meu algoz. Meus livros, meus cadernos antigos, as agendas guardadas, tudo o que me relacionasse à literatura insistia em me torturar. Eu estava sendo traída. Eu, que sempre me dediquei aos textos que lia e escrevia, eu, que me entreguei à ela de corpo e alma, estava sendo apunhalada.

Meus versos, de repente, ganharam vida. Esperaram o momento mais propício da minha solidão para gritar em meus ouvidos tudo o que eu não queria ouvir. Eu fugia do que era e eles insistiam em pular diante de meus olhos, tais como espelhos censores. Tudo o que de meu constituía aqueles poemas, as múltiplas faces que utilizei ao longo dos anos, se rebelava como a dizer: “não podes fugir, estamos aqui para lembrar-te de quem és”.

Eu não dormia, não tinha mais apetite. A todo instante, eles me interpelavam. As fraquezas diante da paixão, os medos, o egoísmo, a arrogância. Faziam questão de destacar todas as minha falhas. De nada adiantou mantê-los presos em gavetas durante anos. Na verdade, eu sempre soube que um dia eles poderiam tornar-se livres. E fraca, como sempre, nada fiz para evitar.

Naquela noite, enquanto me olhava no espelho, decidi virar o jogo. De alguma forma, o que estava acontecendo seria útil: eu aprenderia a me enfrentar. Era chegada a hora do combate que sempre temi: eu contra eu mesma. Permaneci na cama por alguns minutos, pensando em uma forma de me libertar.

Olhei em volta e, não sei o porquê, a prateleira de livros me chamou a atenção. Talvez porque os livros, até então, só tinham feito aumentar o meu transtorno. Meus olhos foram direto a um deles: Fernando Pessoa. Lembrei imediatamente dos versos célebres: “O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente.” Há muito, eu não sabia o que era sorrir mas, naquele momento, sorri da esperteza de Pessoa. Ele não era mais capaz de versejar, mas me dera a solução.

Recordando os versos do poeta português, entendi que só havia uma maneira de deter a poesia que me assombrava. Tudo o que eu tinha a fazer era usar, como arma e escudo, a própria poesia. Se eles insistiam em repetir mentiras que eu acabei fazendo verdades, havia chegado o momento em que eu lhes fingiria verdades nunca ditas.

Estapeei meu próprio rosto, como se quisesse despertar de um transe que durou anos.
Meus poemas eram criação minha e eu não poderia deixar que me dominassem daquela forma. Eles não seriam meu Frankstein de papel. Respirei fundo e fiz aquilo de que tanto fugira: peguei caneta e papel. As idéias fluíram naturalmente; vinham em forma de enxurrada e, com elas, ressurgiam as lágrimas que eu já não tinha. Eu escrevi; escrevi como se fosse a primeira vez, com o mesmo entusiasmo e vigor dos primeiros dias.

Naquelas páginas eu me entreguei sem medo. Disse àquela parte do meu eu, a que sempre me acovardou, tudo o que eu ainda tinha de belo em mim. Eu ainda guardava motivos de orgulho e aqueles versos audazes sabiam disso. Por mais que tentassem gritar meus erros ao mundo, eles precisavam admitir que este mesmo mundo, aliado ao tempo, ensinara-me a errar menos.

Eles se calaram. Os poemas que me assombravam converteram-se em silêncio e voltaram às suas gavetas. Eu venci. A partir daquela noite, não tive mais medo. Resgatei, em mim, a literatura da qual fugira. Entendi que nossa relação seria sempre permeada de intrigas e faíscas, mas que isso não diminuiria a paixão recíproca. É apenas o reflexo da intensidade que nos une.

Amo a literatura e ela me corresponde. Bastou-me, naquele instante, compreender que, para que a poetisa fale, não é preciso que a pessoa se cale. Somos uma e gritar juntas nos garante o equilíbrio. A partir daquela madrugada, entendi que versejar minhas virtudes é torná-las latejantes e escrever meus problemas é terapia incomparável. Naquela noite, o Frankstein que eu destruíra não fora a antologia que guardei e, sim, uma parte inútil de mim. Os poemas, na verdade, fizeram-me feliz.