Estamos indo de volta pra casa"
Renato Russo
Longe de todos de si mesma, Alice fazia lentamente o caminho de volta pra casa. Olhava o cenário, cada detalhe, como se quisesse fazê-lo palco da própria vida. Alice queria escrever sua história. Uma nova história, com novos personagens, outros contextos. Caminhava devagar, mas o velho coelho apressado insistia em dizer o quanto era preciso correr. Eles a desafiavam: o coelho e o tempo. Riam da sua lentidão. Gargalhavam dos seus medos. E ela, mesmo constrangida, seguia. Devagar e sempre. Um dia chegaria a seu destino e reencontraria a si mesma e aos outros. Novos cenários e outros personagens viriam. Ela seria a próxima mocinha do horário nobre. Quem seria o mocinho? Qual seria o vilão? Alice não sabia nem queria pensar nisso agora. Odiava essa mania da vida, de escolher por conta própria o nosso enredo, a nossa história. Por isso, Alice seguia devagar. Tão devagar o quanto podia. Tinha medo do que estava por vir. Sabia que mais adiante daria de cara com as escolhas que a vida fez pra ela. Algumas feitas no impulso, com a pupila saltada, o sangue fervendo. Pura paixão. E tudo o que Alice sempre buscou foi a paz. Ela temia o tempo, como o coelho instigou, mas temia ainda mais a precipitação. Por isso, engolia a ansiedade e seguia devagar. Um dia chegaria ao destino. E sobre isso, o velho coração já lhe falara. Curioso, ele dera um pulinho no futuro e voltara às pressas pra contar: “Respire aliviada, Alice. Logo ali, um pouco adiante daquela curva, à sombra de uma árvore, te espera, sem atropelos, a sua felicidade”.
