
Falta alguma coisa. Não sei dizer o que é. Abro a janela. Deixo o vento frio do início de outono tomar meu rosto e meu espírito. É noite. A lua me olha como a dizer: estamos juntas na nossa solidão. O que me toca é saber que, em algum lugar, tem alguém comigo. Respiro gostoso, enchendo os pulmões, retendo o ar, do jeitinho que aprendi nas aulas de yoga. Fecho os olhos e sinto o calor de quem me abraça em pensamento.
Ainda não sei o que falta, mas entendo perfeitamente o que me preenche. É imaterial. Entrego-me à sensação de ter sem estar. Parece loucura, mas, na verdade, é privilégio de poucos. O certo é que sou. Não importa onde ou como eu esteja. Sempre vou ser. E é essa certeza que não me deixa desistir. É essa convicção que me impulsiona e me faz entender cada respiração, cada solidão, cada aprendizado.
Não sei com quantas luas ainda vou estar. Com o passar dos anos, isso torna-se mero detalhe. Vale a certeza de saber que serei eternamente capaz de percebê-la e de perceber-me diante dela. E, da mesma forma, diante do mundo e seus meandros, das pessoas e suas complexidades, de mim mesma e minhas particularidades. É assim que o que me falta deixa de ter significado. É como se a forma de conduzir a busca fosse mais importante que o seu resultado. Na verdade, ela, a forma como buscamos algo, é o que determina aonde chegaremos. Ainda me falta um bocado, mas estou tranquila: acho que encontrei o caminho.