
Parece clichê, mas é exatamente como uma ferida, que o tempo vai curando aos poucos. Fica a marca, mas ela também vai diminuindo, até não ser mais percebida. Ela, no entanto, permanece lá, convivendo com a gente, fazendo parte do nosso corpo. Eu tenho um sentimento assim. Curou, virou marca, foi desaparecendo, aceitei-a como parte de mim.
Nunca fui de estender a dor de um machucado. Há quem o faça por pura manha. Eu não. Saio logo metendo um mertiolate. Dou o grito consequente, seco o choro e vou mimbora. No caso de sentimento, nem sempre isso resolve. Quando menos se espera, a dor volta, o machucado abre de novo e não tem mertiolate que dê jeito. Eu continuo tentando. Não sei ainda o que é certo: tentar encurtar o tempo de cura ou aceitá-lo com toda a sua lentidão. Acho que, na verdade, o certo não existe. Existem sentimentos e feridas. Existem remédios, o tempo e a gente. A ordem dos fatores não altera o produto, já dizia a tia da escola.
A ferida está aberta de novo. Pior é que já nem incomoda mais. Há uma sensação de estranhamento apenas. Um questionamento inicial, do tipo: “Ah, você ainda está aí?” Depois me acostumo com ela e ela some de novo. Mais um ciclo curioso da vida.