quinta-feira, 11 de março de 2010

O bárbaro ataque dos cabelos brancos


No começo, era um só. Depois viraram dois. E aí povoaram o mundo. Duro é saber que este mundo é a minha cabeça! Alguém me explica, por favor, qual a utilidade dos cabelos brancos? Outro dia, frente ao espelho, visualizei um. Recorri à pinça, claro. Feliz com a retirada, ia saindo, quando visualizei outro, depois outro, e outro. Meu Deus! Um ataque de cabelos brancos em uma negra cabeleira com menos de 30!

Quase tive que recorrer à terapia. Há um ano, eles não estavam lá! Como se atrevem a surgir assim, de repente, sem sequer pedir licença? Crescer já não é coisa fácil. Imagine ter que fazer isso lidando com as mudanças físicas? Tive que amadurecer na marra. De repente me vi tendo que pagar minhas contas, ir sozinha às reuniões de condomínio, carregar minhas próprias sacolas e decidir por mim mesma como administrar as coisas do mundo adulto. Não é, definitivamente, a mesma delícia de ser criança.

Não bastasse, agora tenho que lidar com mudanças para as quais a juventude não nos prepara. O bárbaro ataque dos cabelos brancos me assustou, mas sei que eles não são nada. Sei que é apenas um embrião do que está por vir. E, então, eu penso no quanto envelhecer exige uma super sabedoria. Senão a pessoa pira. Não é de espantar que tantos dos nossos idosos estejam em depressão.

A idade caminha sem pausas, tudo muda, mas nossa essência permanece intacta. E acho que isso é o que mais assusta. Imagino que uma dia a pessoa acorde sem grande pretensões e, então, o espelho, com toda a sinceridade que lhe é peculiar, mostre o quanto tudo mudou. Como os meus cabelos brancos. Como as rugas e o cansaço de nossas avós. É como, de repente, estar vestindo roupas que não reconhecemos. Saber que elas são nossas e não há escolha exige equilíbrio. Por isso, a importância de cuidarmos da essência. Só ela nos restará. A cor dos cabelos, o vigor, o viço da pele, a flexibilidade e a leveza do corpo, tudo isso muda. É a lei da vida. O brilho dos olhos, porém, deve permanecer firme até que eles se fechem para sempre. Talvez, quem sabe, se abram em outro lugar.