
As melhores conversas são as de ônibus. Daria um livro lotado de pérolas. Curioso como as pessoas escancaram suas vidas em um coletivo lotado, como se todos ao redor fossem surdos e acríticos. Hoje, em especial, ouvi uma conversa que me causou indignação. Um homem, na casa dos 35, e uma mulher que certamente já passou dos 45. Ambos vangloriavam-se de não respeitarem os assentos reservados a idosos, grávidas e portadores de deficiência.
- Ontem eram quase dez da noite quando um velho quis meu lugar. Não levanto. Falei bem alto que àquela hora meus pais já estavam dormindo. – disse a mulher, esquecendo-se de que não demora muito para chegar aos 60.
Ele riu.
- Está certa. Isso não é hora de velho estar na rua. Eu também não daria o lugar. Normalmente estamos muito mais cansados que eles.
- E as grávidas? – continuou a mulher, que usava franja nos cabelos e roupas joviais – Outro dia uma moça me cutucou e disse: “estou grávida”. Respondi: “E eu com isso? Não sou o pai do seu filho.”
Continuaram a conversa nesse tom. Fiquei irritada. Contive-me. As pessoas ao redor não mereciam um barraco no ônibus cheio às 7 da matina. Triste ver quanta gente egoísta existe no mundo. E em ver como as pessoas não sabem lidar com as regras. Sou uma pessoa livre. Abomino a “burrocracia” e a banalização das normas. No entanto, qualquer ser humano sabe que as regras são necessárias para garantir a boa convivência e os direitos de todos, inclusive desses dois aí da história.
Para mim, lei é lei. E, no caso dos assentos reservados, a questão não se limita à ela. Passa, principalmente, pela boa educação e pelo bom senso. Nossos velhinhos têm todo o direito de saírem e voltarem na hora que bem entenderem. Nossas gestantes têm todo o direito de descansarem os meses de gravidez em um assento reservado. Respeitar os direitos do outro é cuidar para que os nossos próprios direitos sejam respeitados. Não fazer isso e, como não bastasse, gritar aos quatro ventos que não faz, é deixar claro que realmente é preciso usar a força da lei para que as coisas sejam cumpridas. Ou para que, ao menos, as minorias tenham onde buscar ajuda. Triste é pensar que tudo poderia ser resolvido de uma maneira muito mais simples: com solidariedade.