
Quando criança, eu ouvia na televisão
que as armas não são brinquedos pra comprar.
Quando cresci, eu aprendi
que as palavras são as armas mais mortais
e que a TV, se não mata, fere.
E fere muito mais,
porque machuca onde os remédios não alcançam.
Feriu a integridade e a inocência que eu tinha.
E os jornais das sete horas
Tiraram-me os finais felizes das histórias.
Percebi que as bruxas que me punham medo
estão nas ruas e não nos contos.
Percebi que o para sempre não existe,
e que a felicidade acaba quando se fecham os livros.
Quando criança, eu lia nos gibis,
que os heróis salvam os homens dos perigos do mundo.
Mas percebi que o mundo não alerta os heróis
sobre os perigos dos homens.
E eles morrem com a infância,
ou por notar que não é tão fácil como parece.
Quando criança, eu ouvia na escola
tanta coisa que o universo, eu acho, esqueceu.
Ou simplesmente entendeu que era só encenação.
Quando criança, fui tão iludida, enganada,
Que agora acho que crescer não vale a pena.
Ensinaram-me que eu poderia tudo.
Mas hoje eu posso apenas um poema.
*Escrito em 2002.